segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Odete Roitman e os "cheirosinhos"

Beatriz Segall, a Odete Roitman de "Vale Tudo"

Numa conversa à toa, se alguém diz, sem nenhum pudor: “Reserve uma suíte presidencial num desses hotéis limpinhos, mas sem mendigos na porta”, aposto que a reação dos interlocutores seria de indignação: “Oooooh!”.

A frase acima é apenas uma das muitas frases desconcertantes proferidas pela personagem Odete Roitman na novela “Vale Tudo”. O folhetim de Gilberto Braga é reprisado no canal Viva com surpreendente sucesso de audiência. Não duvido que esse burburinho todo se deve à vilã interpretada por Beatriz Segall.

“O Brasil é um país de jecas”, “esse país não vai pra frente porque brasileiro é preguiçoso”, “só gosto de ver o Rio de Janeiro da minha TV lá em Paris”, "é uma mistura de raças que não deu certo" são alguns dos comentários depreciativos da personagem contra o Brasil e os brasileiros, que a megera chama de “gentinha marrom”.

Não sei qual é o perfil do público que assiste à reapresentação de “Vale Tudo”. Sei que a novela passa na TV paga. Ou seja: em “território” dominado pela “classe dos cheirosinhos”. Só esse fato talvez seja suficiente para “desmascarar” os “saudosistas”, traçar algum paralelo entre “os fãs de Odete Roitman” e aqueles que menosprezam o voto dos pobres e querem “afogar” nordestinos. Estou exagerando? Acho que não. Acho que o preconceito da personagem é o preconceito de quem a idolatra.

Sacanear pobre/nordestino é “divertido”. Para a elite, os pobres/nordestinos sempre foram os “culpados” pelas mazelas nacionais. Não por acaso, Rita Lee e Juvenal Juvêncio, o presidente do São Paulo, achincalharam Itaquera, bairro popular da capital paulista. E o estilista Sergio K mandou em seu Twitter: “Pobre é igual a papel higiênico; se não tá no rolo, tá na merda”. A “piada” foi creditada a um estagiário que, segundo comunicado da marca, foi demitido sumariamente.

No “Estadão”, a colunista Maria Rita Kehl também foi demitida, mas por motivo oposto: legitimar o voto dos pobres. Assim termina sua coluna, considerada pelo jornal “delito de opinião”: “Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.”

AVISO: todos votamos em causa própria, não apenas quem recebe o Bolsa Família para sobreviver. Ou você acha que as empreiteiras financiam campanhas por altruísmo?

Não há como negar a indiscutível qualidade da novela de Gilberto Braga, mas a “ressurreição” espetacular de Odete Roitman pode ser reflexo desse momento histórico em que o Brasil parece estar rachado ao meio. Os pobres/nordestinos conquistam cada vez mais espaço na sociedade e isso incomoda aqueles que desejam vê-los no lugar de sempre: a mendicância eterna.

Em entrevista para a “Folha”, a atriz Beatriz Segall respondeu a perguntas de internautas como se fosse a vilã de “Vale Tudo”: “Dona Odete, você se foi há 20 anos e isso aqui continua a mesma merda. Por que voltou?”. A personagem responde: “Para lembrar às pessoas que continua tudo uma merda.”

Falácia, dona Odete! O Brasil melhorou. A “gentinha marrom” conquistou alguns direitos mínimos. Claro que o país ainda está longe de ser uma Suíça, tem problemas crônicos em todos o setores, mas esse discurso derrotista fazia sentido em 1988. Agora, não mais. Ou, pelo menos, não com esse desprezo míope.

Também olho para o Brasil com desconfiança. Tenho algo de Odete Roitman em mim. Mas não compactuo com essa gente “descolada” e “fashion” que posa de tolerante e "usa" a vilã de “Vale Tudo” como "porta-voz" dos seus prenconceitos.

Odete Roitman voltou. Ao contrário do passado, quando era odiada, agora é "cool" cultuá-la. E os "cheirosinhos" aproveitam o "hype" para expressar o que realmente pensam através das falas absurdas da personagem. Afinal, é tudo ficção, certo? Até o "chilique" daqueles que se acham "chique" porque assistem "Vale Tudo". Afe!   

9 comentários:

  1. no coments...o jornalista mereceu

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  2. As Odettes se proliferam nas academias...
    Mulheres velhas ricas inuteis engomadas...
    Socialmente inúteis.
    Vc devia indicar as dublagens de Las Bibas from Vizcaia...
    acabam com a xaropada.

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  3. Eu acho esse negócio de preconceito um negócio bem engraçado. Nao se pode falar mal de pobre nem de nordestino mais falar mai de rico pode? Isso também nao é preconceito? Nem todo rico é preconceituoso e nao é pq tem uma vida luxuosa que desdenha de pobre. Num país onde um deputado tem um salário absurdamente alto e o pobre tem que se contentar com um salário mínimo é pq tem alguma coisa errada. Depois qdo Dona Odete diz que isso aqui é um país de jecas ela está totalmente correta. País de gente que nao sabe reivindicar o seu, que aceita tudo de cabeça baixa, enfim um país de jecas.

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  4. Concordo anônimo! Hipocrisia geral. Todo mundo tem preconceito.

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  5. Bom, naão concordo em tudo que a Odete diz, mas se verificarmos a conduta dos polícos brasileiros, legisladores, juízes, temos que dar o braço a torcer. Terra de Tupiniquins, República de (das) Bananas. Desde meus sete anos de idade (hoje tenho 51) ouço dizer que o Brasil é o país do futuro. Com plena certeza afirmo que vou morrer não vendo este futuro. Meu maior sonho é ver uma revolução na Terra Tupiniquim, onde políticos, um bom número de juízes e corruptores no paredão. Como na revolução francesa. Um amigo cert vez disse: O dia que Urubu for avião, abacaxi for granada e coco bala de canhão, o Brasil tem revolução. Viva a Odete!

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  6. Anônimo acima disse tudo...

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  7. Querido Freddy,
    Nao adiantaria uma revolucao levar 'ao paredao' politicos corruptos, juizes ou malfeitores que se aproveitam do povo. Nao adiantaria, pois os jecas os elegeriam novamente. Haja visto Collor. Quanto a ser o pais do futuro, 'que futuro' mais precisamente? Pois desde Lula, certamente houve uma pressuposta melhoria na economia nacional (mesmo que, creio eu, para velar uma bomba financeira que explodira logo, logo...). Mas o futuro esta aqui: os jecas agora com voz ativa (Tiririca na politica!...). Pode ate' ser que economicamente este pais consiga se erguer, mas o que este Brasil NUNCA tera' e' cultura, moral (nao no sentido castrante retraido, mas de boa conduta), educacao - a 'santa trindade' para qualquer pais civilizado. Sinto dizer que os jecas chegaram para ficar. Dona Odete para presidente!
    Dr R Barros (radicado na Inglaterra ha 18 anos e, sinceramente, sem plano algum de voltar a Tupiniquinlandia)

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  8. Concordo plenamente com dito acima. O problema nao sao os politicos. O problema somos 'nós' mesmos! Por acaso os politicos, juizes e bandidos vem de onde? de Marte?

    O problema no Brasil é essa cultura de melda aonde todo mundo so quer tirar vantagem do proximo. Uma cultura egoista, aonde ser desonesto é simplesmente normal. Isso ainda vai demorar muito pra mudar, e tendo percebido isso logo nos primeiros anos da minha adolescencia, nao pensei duas vezes antes de deixar o Brasil. Doze anos fora dai e voltei apenas quatro vezes, e a cada vez percebo mais ainda (de forma geral)como os brasileiros estao cada vez mais mal-educados, xucros e gordos!

    A Odete que estava certa!

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  9. Não pode falar mal de pobre mas de rico pode?

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