quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Os Famosos e Os Duendes da Morte

Os Famosos e Os Duendes da Morte

Publiquei um post (Jovens, Envelheçam!) em que analiso reportagem do caderno “Folhateen” sobre suicídio entre jovens homossexuais. Para minha surpresa, o tema, que eu achava que afastaria as pessoas, rendeu grande repercussão. Até o momento, é o texto mais acessado do blog.

Entre os leitores, Esmir Filho, diretor de “Os Famosos e Os Duendes da Morte”, pediu para eu assistir ao seu filme. Motivo: “discute exatamente esse tema”.

Depois do toque do diretor, me preparei para ver “Os Famosos e Os Duendes da Morte” com expectativa redobrada. Queria entender de que maneira um jovem cineasta, em seu filme de estreia, abordaria o suicídio – assunto TABU que a sociedade da SAÚDE TOTAL prefere fingir que não existe.

Esmir Filho manda bem!

“Os Famosos e Os Duendes da Morte” é indie, pop, poético, angustiante, claustrofóbico, delirante, lisérgico.

O cineasta mostra pleno conhecimento dos códigos visuais/sonoros dos adolescentes. Mais que isso: examina com sutileza brutal as inquietações em carne viva de meninos e meninas que transitam solitários pelo webmundo.

Webmundo que aproxima e afasta: “Estar perto não é físico”, escreve o garoto protagonista em seu blog.

O sentimento de inadequação ao ambiente e às pessoas que o cercam pressiona o garoto de tal modo que o suicídio torna-se alternativa sedutora. A ponte de onde pode-se saltar para “longe” está ali, espreitando-o a todo momento.

Inadequação representada por sua ambiguidade sexual, pela mãe “desligada” da realidade, pelo amigo à toa, pela paisagem desoladora e tediosa da pequena cidade-aldeia, pelo desejo insuportável de “cair fora”.

O garoto que se sente “livre” apenas quando “navega” pelo mundo disfarçado de Mr. Tamborine Man é o retrato do adolescente em processo de descobertas. Para alguns, esse processo pode ser bastante doloroso. E essa é a grande sacada do filme de Esmir Filho. Fazer com que a gente perceba o quanto dói ser empurrado para a “marginalidade” por não corresponder às expectativas, por não se adequar às normas.

Às vezes, suportar a pressão é foda. E, aqui, não falo apenas de jovens homossexuais, mas de todos aqueles que são excluídos da turma por serem “diferentes”.

No filme, há uma cena que emociona mais que as outras. A câmera, estática, acompanha a expressão do garoto enquanto uma voz escolhe os meninos que vão participar de uma partida de futebol na escola. A feição atormentada do garoto revela que ele não quer ser convocado, mas também não quer ser deixado de fora.

Acredito que seja essa dualidade entre o desejo de “pertencer” e a incapacidade de interagir com o ambiente hostil à sua volta que leva muitos garotos a procurar a ponte de onde pode-se saltar para “longe”.

Em linguagem pop, “Os Famosos e Os Duendes da Morte” aborda o suicídio sem apelar para o melodrama, sem apontar culpados, sem impor certezas.

Acho que há um pouco de todos nós no filme. Basta querer ver.

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