terça-feira, 2 de novembro de 2010

Pais & filhos

Pai e filho

Meu pai morreu de repente, nos meus braços. Suas últimas palavras foram: “Marcos, o pai está morrendo”. Corremos para o hospital, mas era tarde demais.

Tarde para socorrê-lo. Tarde para que a gente resolvesse as nossas incompatibilidades.

Meu pai era mecânico de carros. Do tipo expansivo, batalhador, com dezenas de amigos. Nunca vi tanta gente em um velório. Tantas coroas de flores. Tantos pêsames. Descobri ali, em meio ao tumulto de lágrimas, conversas ao pé do ouvido e dor, que meu pai devia ser muito carinhoso com as pessoas para merecer aquela despedida emocionada.

Pena que comigo meu pai nunca tenha sido carinhoso.

Não lembro de um único abraço. Um elogio. Uma palavra de afeto. Nossa relação sempre foi distante. Parecíamos dois estranhos vivendo sob o mesmo teto.

Meu pai era da velha-guarda. Para ele, ser pai significava botar comida na mesa e filho na escola. Ensinar a ter responsabilidade e que conta de luz se paga em dia.

Aprendi com ele a respeitar meus compromissos, mas acho que cresci com um vazio emocional que interferiu nas minhas relações pessoais e amorosas. Quem pouco carinho recebe acaba com receio de demonstrar carinho.

Saí de casa cedo. Primeiro me mandei para o Japão. E, depois, me mudei para São Paulo. Acredito que meu desejo, mais do que me jogar no mundo, era escapar daquele convívio sufocante, quase indiferente. O silêncio do meu pai sempre me incomodou, embora eu nada tenho feito para quebrar o gelo.

Medo? Vergonha? Timidez? Não sei...

Se meu pai não tivesse morrido cedo demais, talvez a gente tivesse se entendido e, quem sabe, até seríamos amigos.

Não deu tempo.

Sei que meu pai me queria bem. Faltou ele transformar esse amor em gestos e palavras. Faltou a mim humildade para lhe dizer o quanto necessitava do afeto paterno.

Se o seu pai ainda está ao seu lado, tente compreendê-lo. Fazê-lo enxergar que você precisa da companhia e do companheirismo dele. Não deixe para pensar nisso depois, quando ele se for. A dor da ausência e de que algo ficou pelo caminho, sem ser resolvido, pode persegui-lo a vida inteira.

Se pudesse, voltaria no tempo, olharia nos olhos do meu pai e revelaria o quanto ele era um "cara legal". Agora é tarde. Só me resta a saudade do abraço que nunca aconteceu.  
 

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