terça-feira, 9 de novembro de 2010

A revolta das dondocas

A revolta das madames em "Ti Ti Ti"

DONDOCAS UNIDAS JAMAIS SERÃO VENCIDAS!
DONDOCAS UNIDAS JAMAIS SERÃO VENCIDAS!
DONDOCAS UNIDAS JAMAIS SERÃO VENCIDAS!

Foi assim, enfurecidas sobre o salto alto, que as madames emergentes do Tatuapé, bairro de classe média e média alta de São Paulo, invadiram o ateliê do costureiro Jacques Leclair na novela “Ti Ti Ti”.

Sim, eu assisto novelas. E me divirto bem mais com o texto da Maria Adelaide Amaral em “Ti Ti Ti” do que com os diálogos insossos da maioria dos filmes brasileiros bancados pelas leis de renúncia fiscal. No Brasil, para quem não sabe, a televisão é muito mais relevante do que o cinema nacional – considerado pela “intelligentsia” uma arte maior. Ah, tá...

Mas não é disso que eu quero falar.

A cena de “Ti Ti Ti”, em que as dondocas se revoltam contra o costureiro truqueiro, me fez pensar sobre os “movimentos sociais” vindos da elite. Lembrei do “Cansei", o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, e da declaração de um de seus principais integrantes: “Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado”.

Veja só: o tal “Cansei" falava em “direito dos brasileiros” ao mesmo tempo em que excluía os piauienses. Não por acaso, o Piauí pertence a qual região do Brasil mesmo?

Outro movimento, chamado São Paulo para os Paulistas, assume-se descaradamente separatista. Quer “exterminar” os nordestinos, expulsá-los da metrópole que eles ajudaram a construir. O mais grave é saber que o manifesto é assinado por universitários entre 18 e 25 anos. Ou seja, não se trata de velhos quatrocentões mentalmente atrasados, mas de jovens que deveriam lutar por um Brasil mais plural, sem preconceitos.

Outro dia, li a declaração de uma dasluzete na coluna da Mônica Bergamo, na “Folha”: “Uma coisa que só a Daslu tem é o ambiente, o serviço, que passa por cima de qualquer problema”. O “qualquer problema” a que se referia a menina bocó era os escândalos de sonegação fiscal que levaram a dona da Daslu, Eliana Tranchesi, para a cadeia.

A Daslu, a mais completa tradução do luxo à brasileira: cafona, ostensivo e perdulário, segundo esse raciocínio torto, estaria acima do bem e do mal.

É assim que a elite brasileira se comporta: acima do bem e do mal. E, quando faz reivindicações, não é por direitos civis – afinal, quem se importa com direitos civis quando tem milhões na conta bancária? A chiadeira dos ricos é sempre contra a existência dos pobres, quando são pegos em ato ilícito ou provocados.

As madames de “Ti Ti Ti” quebraram o ateliê de Jacques Leclair porque foram chamadas de “rotundas e barangas”. A elite quer quebrar o Brasil ao meio porque nunca engoliu um ex-operário nordestino na presidência da República, nem vai facilitar a vida da primeira mulher presidente.

Para os milionários, qualquer mudança novidadeira assusta: "Bolsa-Família?! Oh, céus... Se os pobres deixarem de ser pobres, quem vai limpar o chão que a gente pisa?"

Nenhum comentário:

Postar um comentário