quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Design: a linguagem das coisas

Lançamento do iPad em Nova York

Acabei de ler “A Linguagem das Coisas” (Editora Intrínseca), do inglês Deyan Sudjic, diretor da London Design Museum.

O livro é dividido em cinco capítulos: 1) Linguagem; 2) O design e seus arquétipos; 3) Luxo; 4) Moda; 5) Arte. Em 223 páginas, o autor analisa o design e sua história, e busca responder a duas questões fundamentais: 1) Como somos manipulados e seduzidos pelas coisas que possuímos?; 2) O que realmente valorizamos?

Para Deyan Sudjic, o design e os designers são os principais responsáveis por este momento histórico de supervalorização do descartável, em que os produtos são programados para se tornarem obsoletos em poucos meses, elevando os níveis de consumo. É o que ele chama de “sedução em série”.

Abaixo, algumas frases retiradas do livro:

➢ A empresa precisa tornar seus clientes tão sedentos por um novo produto que joguem fora o último a cada dois anos.

➢ Aqueles objetos industriais que sobreviveram têm um ciclo de vida medidos em meses, não mais em décadas. Cada nova geração é surpreendida tão depressa que nunca dá tempo de desenvolver uma relação entre dono e objeto.

➢ Os objetos são nossa maneira de medir a passagem de nossas vidas. São o que usamos para nos definir, para sinalizar quem somos, e o que não somos.

➢ Quando se compreende a linguagem do design, expressa por forma, cor, textura e imagem de um objeto, há constantes paradoxos entre função e simbolismo a ser considerados. Certas cores são associadas mais ao homem que à mulher. Alguns materiais sugerem luxo.

➢ Lembre-se da convicção do designer gráfico Otl Aicher de que, se a Alemanha não gostasse tanto de maiúsculas, teria sido menos vulnerável à ascensão do fascismo.

➢ O modo como usamos um objeto é um aspecto estético do design tão importante quanto o visual que esse objeto tem.

➢ Se um objeto vem com um longo manual de instruções, você pode ter certeza de que nunca será um arquétipo.

➢ A cor do vidro, a forma, a rolha, às vezes presa com uma gaiola de arame e protegida com uma folha de papel metalizado, o vocabulário gráfico do rótulo – tudo é usado para manipular nossas expectativas em relação ao conteúdo. Experimente o choque para as papilas gustativas de beber vinho de uma garrafa de Coca-Cola, ou uísque de uma garrafa de cerveja, para sentir o grau em que nossas percepções podem ser moldadas pelos aspectos físicos do design.

➢ A obra de um designer quase sempre se baseia na exploração e na manipulação de arquétipos existentes. Uma vez criado, um arquétipo fica em nossa memória, uma recordação pronta para ser usada novamente, às vezes de formas muito diretas.

➢ A estratégia habitual foi usar metais e pedras preciosos da maneira mais evidente possível. Mas uma caixa folheada a ouro para um objeto que é tecnicamente ultrapassado depois de seis meses parece uma extravagância irritante mesmo numa cultura de excesso.

➢ Acreditamos que possuir coisas belas também nos torna belos.

➢ Só os que estão seguros de sua riqueza se sentem à vontade vivendo sem exibir suas posses.

➢ Apesar do gênio criativo de Yves Saint Laurent, para a geração pós-1968, a alta costura era um anacronismo esnobe, identificado com os enrugados e culturalmente irrelevantes.

➢ A moda, apesar de ter se transformado num colosso industrial dominado por três ou quatro conglomerados, depende da arte, da fotografia e do cinema para suas referências visuais. Usa essas imagens de forma tão incansável, para alimentar várias coleções por ano, que seus temas logo ficam despojados de significado.

➢ Moda não é arte. Mas nunca antes se esforçou tanto para sugerir que poderia ser.

➢ Quanto mais inútil, mais valorizado é um objeto.

➢ Michelangelo, se vivo fosse, hoje estaria desenhando carros para a Ford.

➢ A inutilidade é, ao que parece, a qualidade mais valorizada. Assim os designers aspiram a ser artistas.

➢ Desde que surgiu como profissão independente, o design é usado para manipular o desejo. 

2 comentários:

  1. Semiotica didática, aplicada em exemplos do mundo contemporâneo. Tenho que ler esse! Valeu a postagem!

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  2. Alguém tem o PDF do livro? Eu não consigo achar para comprar a versão física.

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