domingo, 5 de dezembro de 2010

A devoção evangélica de Kaká

Kaká

O jogador Kaká e sua mulher, Caroline Celico, abandonaram a igreja Renascer. A notícia, publicada no portal do UOL, rendeu mais de cem comentários de leitores em poucas horas.

Uns apóiam a decisão do casal. Outros especulam que Kaká e Caroline irão fundar uma nova igreja. E sempre há aqueles que fazem piada: “Meu amigo Kaká, venha para minha igreja! Você doa o que puder, o que o seu coração mandar.”

Mas por que uma notícia banal como essa mexe tanto com as pessoas? Faz com que os internautas se sintam quase obrigados a se pronunciarem sobre o fato?

Tenho um palpite.

Kaká é profissional bem-sucedido. Ganha milhões de euros por ano no futebol europeu. Diferente da grande maioria dos jogadores brasileiros, vem de família de classe média. É articulado e bonito. Estudou até o ensino médio. É idolatrado.

Acho que é isso que deve perturbar os “esclarecidos”.

Como alguém com esse perfil pode seguir uma igreja comandada por um casal de “bispos” envolvidos com evasão de divisas? Uma igreja em que o teto de um templo, por negligência, caiu sobre a cabeça dos fieis, matando nove pessoas e ferindo outras 106?

Enfim, como o jogador pode ser evangélico?

Se Kaká fosse pobre, preto e analfabeto, ninguém se espantaria com sua religiosidade. Afinal, de acordo com o senso comum, só a massa ignara é capaz de cair na conversa mole de pastores falastrões. Gente “chique” e “instruída” como o meia-atacante do Real Madrid, nunca!

É como se a fé protestante de Kaká não combinasse com sua imagem e posição social, com seus ternos Armani, com a brancura de sua pele e dos seus dentes perfeitos.

No futebol brasileiro, há “atletas de Cristo” aos montes. Mas, ao contrário de Kaká, são representados em sua maioria por jogadores vindos dos estratos “pardos” da sociedade. Normal, então, que sejam evangélicos, certo?

Kaká, enfim, deve ter percebido que a Renascer não merece sua veneração, muito menos seu dinheiro. Por isso, caiu fora. Mas deve continuar evangélico. Ele cresceu numa família evangélica. Foi essa crença que moldou sua formação.

Percebo honestidade em sua devoção e nem um pingo de constrangimento em assumir, por exemplo, que casou virgem, obedecendo mandamento de sua igreja. 

É preciso saber respeitar a liberdade religiosa de cada um. Se Roberto Carlos, católico fervoroso, canta homenagens a Nossa Senhora e todos o aplaudem de pé, por que Kaká não pode “seguir Jesus”?

A fé é dele, o dinheiro é dele, e ele faz o que bem entender com o que tem. Mesmo que a gente não o compreenda.  

Um comentário:

  1. Concordo. Cada um faz o que quer da vida. Mas quando se é famoso, todos chegam com questionamentos inúteis sobre certas escolhas. Gente que não tem outra ocupação a não ser invadir a vida alheia. Uma pena.

    Beijos, Marcos! Bom domingo!

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