sábado, 11 de dezembro de 2010

O beijo gay e a TV Globo

Por que não?

Desta vez foi na série “Clandestinos – O Sonho Começou”. A TV Globo ensaiou, gravou, divulgou e... não mostrou.

Em 2005, na novela “América”, a emissora fez o mesmo. Na época, a autora do folhetim, Glória Perez, desmentiu versão oficial da Globo, que a responsabilizou pelo corte, e postou em sua página no Orkut: “Eu escrevi [a cena] e os atores gravaram, mas nem tudo depende de nós, ok?”

A censura provocou reações raivosas da militância gay.

A relação da TV Globo com a homossexualidade é, no mínimo, esquizofrênica. Em “Ti Ti Ti”, por exemplo, a emissora, sem estereotipar, conta uma história comovente de in/tolerância. Julinho (André Arteche) namorou Osmar (Gustavo Leão), morto num acidente de carro. Bruna (Giulia Gam), a mãe beata de Osmar, não aceita a orientação sexual de Julinho, nem acredita que seu filho tenha sido gay.

No final, com certeza, o amor maternal fará com que Bruna supere a sua religiosidade e o seu preconceito.

O problema é que a Globo só vai até aí. Falta-lhe coragem, ousadia, colhões para “validar” a homossexualidade em horário nobre. A emissora capricha nas “preliminares”, mas, na “hora H”, broxa, amolece, acovarda-se.

Em entrevista para a “Folha”, Ricardo Linhares, parceiro de Gilberto Braga em “Vale Tudo” e outras novelas, disse que “o beijo gay ainda é tabu na TV aberta brasileira”. Para Silvio de Abreu, autor de “Passione”, “a sociedade já está mais do que preparada para ver um beijo gay feito com elegância, bom gosto e emoção”.

Repare nas palavras de Silvio de Abreu: “elegância, bom gosto e emoção”. Isso significa que o beijo gay até pode ir ao ar um dia, mas só se for romantizado, sem qualquer conotação sexual. Em “Passione”, Clara (Mariana Ximenes) e Diogo (Daniel Boaventura) podem se agarrar e se lamber, seminus, na cama. Dois homens ou duas mulheres, jamais!

A Globo é a maior TV aberta brasileira. Suas novelas e séries são acompanhadas por milhões de pessoas. Faria um bem danado para a comunidade gay se “saísse do armário” e fosse até o fim em suas histórias que envolvem personagens homossexuais.

“Ir até o fim” é mostrar o óbvio. Casais gays – oh! – se beijam: na boca, no cangote, na orelha, na bochecha, no dedão de pé.

Ao “esconder” esse “detalhe” do público, a emissora se apresenta tão homofóbica quanto os “neonazistas” que espancam homossexuais na avenida Paulista. A lógica é a mesma: você pode ser gay, desde que não exponha sua orientação sexual em público.

Para ser “gay friendly”, dona Globo, não basta tatear a homossexualidade com “luvas cirúrgicas”. É preciso assumi-la sem restriçõe$. 

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Veja o beijo gay na série Clandestinos que a Globo não mostrou. 

Um comentário:

  1. A Rede Globo é uma empresa e vive do lucro, não tem o mesmo papel que o Governo Federal, não dá para forçar a barra e empurrar goela a baixo o que o grande público ainda não quer vê. Também adoraria ver um beijo gay, uma mini-série gay, mas para isso o Governo Federal precisa fazer a sua parte também, aprovando as leis que precisam e devem ser aprovadas, não acha?

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