segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O lixo e os cadáveres

Complexo do Alemão, no Rio

A “Folha” de domingo (4 de dezembro) publicou lista parcial com os nomes de 18 mortos nas operações da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio. No total, segundo a polícia militar, 37 pessoas morreram nos confrontos.

Ao destrinchar a lista, podemos chegar a algumas conclusões óbvias sobre a realidade dos morros cariocas.

1) Os 18 mortos são do sexo masculino.
2) Separados pela cor da pele, morreram nas operações 5 negros, 10 pardos e 3 brancos.
3) O mais jovem, Davi Basílio Alves, tinha 17 anos. O mais velho, Valdemiro Carlota, 45.
4) Um indivíduo ainda não foi identificado.

A saber: homens são maioria no mundo do crime (1). Negros e pardos são maioria nas periferias e favelas do Brasil (2), onde a expectativa de vida do criminoso é baixíssima (3) e, muitas vezes, morre-se sem nunca ser identificado (4).

Essa é a realidade: nua & crua; pura & simples; curta & grossa.

Mas, na verdade, não sabemos se os 18 mortos eram bandidos. E nunca saberemos com certeza se eram ou não. Também ignoramos em que circunstâncias essas mortes ocorreram. Houve execução? Tiros à queima-roupa? Ninguém sabe informar.

No Brasil do “gato net” é assim: contabilizam-se os cadáveres, mas nem sempre há preocupação em explicar as mortes, identificar o corpo. É mais fácil jogar todo pobre/preto/pardo na “vala comum” da criminalidade. Se levou bala é porque fez “algo errado”. Questão resolvida.

Nesse "salve-se quem puder" entre o bem (bem?) e o mal (mal?), a morte de inocentes é tratada como “mal necessário”, fatalidade, “baixa de guerra”.

Enquanto isso, no lado “cheiroso” da capital fluminense, a classe média carioca comemora as operações como se fossem a solução definitiva da segurança pública no Rio.

“Dia D”, uma ova! Outros confrontos virão enquanto o poder público não fizer o mínimo pelas áreas pobres da cidade: recolher o lixo, por exemplo.

O lixo e os cadáveres.

O adolescente Davi Basílio Alves foi morto na quinta-feira (25/11). Seu corpo ficou lá, “esquecido”. No sábado (27/11), amanheceu despedaçado. Porcos famintos se alimentaram dele. A mãe resolveu agir: enrolou o corpo do filho numa lona e o levou para o Hospital Getúlio Vargas.

Bandido ou não, Davi era cidadão brasileiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário