quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Às moscas

Ilustração: Eloane Teijeira

O menino Théo mantinha o olhar fixo na mosca pousada na borda da xícara. Resto de café. Outras migalhas de pão deixadas sobre a mesa. A flor murcha. O jornal não lido. Pontas de cigarros caídas do cinzeiro. Era tarde da noite. E ele não tinha idéia do que acontecia. Por que a mãe ainda não limpara a mesa, como de costume?

     — Ela foi embora, disse o pai.

A mosca voou para longe. Os olhos de Théo tentaram acompanhá-la. Em vôo rasante, chocaram-se com o olhar aflito do pai. Um nó na garganta. O pai tinha o rosto crispado. Um pavor inédito lhe contorcia as mãos. Alguma coisa... Théo não tinha idéia do quê? E abriu a boca num bocejo longo e displicente.

O pai nada mais disse.

...

No quarto azul, Théo notava a luz fugidia daquela manhã. Sol ia, sol voltava, perfurando anabolizadas nuvens pingadas de suor. A mãe não viera lhe chamar como toda vez. A quietude das louças. A memória do rosto crispado do pai. De um a dez, o menino começou a contar. Assim, como ensinara um dia Natália, o medo era vencido.

E Théo sabia. Natália estava certa. Natália estava sempre certa.

O menino pisou o chão frio. Um cisco de vida lhe subiu pelo corpo. Era preciso acabar com aquele mistério. Apaziguar o coração. Fez das unhas, canivetes. E tomou a cozinha com os dedos em riste. Outra mosca. Mesma mosca. Outras. E o zumbido tumultuado delas; das moscas que disputavam as migalhas de pão. Resto de café.

Ela foi embora, dissera o pai.

Era tarde da noite. Théo escutara tantas vezes a mãe amaldiçoar a noite. Os perigos que a noite escondia sob o feitiço inebriante da lua. Não! A mãe não iria embora tão tarde da noite. Dormia, isso sim! Dormia porque cansara de limpar a mesa, de acordá-lo sempre à mesma hora de cada manhã.

Ela foi embora, dissera o pai.

Mas o pai devia estar bêbado, isso sim! Bêbado como daquela outra vez, lá na casa do amigo dele.

Por um minuto, o menino acreditou no possível.

E foi ao quarto onde os pais dormiam. E falavam de coisas complicadas. E se beijavam de um jeito diferente.

Diante da porta entreaberta, Théo pôde ver o corpo caído do pai. Um nó na garganta. Ele não tinha idéia do que acontecia. Por que o pai dormia naquele chão frio? Por que a mãe ainda não limpara a mesa, como de costume?

Théo entrou no quarto. Pouca luz. Com os pés descalços, patinou naquele líquido escuro que parecia ter saído da cabeça do pai. Sangue. Não é vermelho o sangue? E o menino se lembrou do padre Lima. A beber do cálice, o vinho.

Um revólver.

A carne feito geléia. O cheiro metálico grudava às narinas. E ele nada sentia. Olhava apenas para o corpo inerte do pai. Ouvia o zumbido da mosca. Outra? Mesma? Théo agora se convencia de que a mãe fora embora de verdade. Ela não estava no quarto; não dormia. A maldosa noite a raptara sob o feitiço inebriante da lua de ontem.

De um a dez, o menino começou a contar. Assim, como ensinara um dia Natália, o medo era vencido.

E Théo sabia. Natália estava certa. Natália estava sempre certa.

     e outra vez vencido o medo,

     ele se lembrou de que ainda precisava escovar os dentes.

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Conto publicado originalmente no livro "Contos Diminutos", 1999, Marcos Guinoza, edição do autor. Produção: Marcia Okida.

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