quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A carta

Ilustração: Dennis Calçada

Ele não tinha o nome na lista telefônica. Afinal, ele não tinha telefone. No pequeno apartamento onde morava, apenas o indispensável: livros, discos e almofadas; binóculo e televisão; a poltrona verde-musgo que pertencera ao pai; água, café e cigarros; relógios e quebra-cabeças; sabonetes neutros; canetas, papel e silêncio;

     solidão;

     solidão das pias;
     
     solidão assim.

     susto!

A carta jogada por debaixo da porta. Uma carta em que o seu nome estava escrito em letras redondas e bonitas e femininas.

A carta!

A vida se movia.

E sentado na poltrona verde-musgo que pertencera ao pai, ele tentava adivinhar o nome de quem o encontrara naquele sereno; o nome do filho da puta; o nome que agora beijava o carpete mofado do seu pequeno apartamento.

Um beijo roubado.

Um beijo.

A boca entreaberta.

Quem?

Ele não tinha o nome na lista telefônica. Afinal, ele não tinha telefone.

Ele não tinha amigos.

Ele não tinha namorada.

A família: uma fotografia rasgada ao meio.

A carta lhe ressuscitou o passado; esqueletos de memórias que emergiam das profundezas do inferno íntimo, inviolável; dele apenas.

Tudo ao mesmo tempo, de repente.

Brinquedos. Bebedeiras. Dias de chuva. Porradas. Tardes riscadas a giz. O latido de um cão. A mordida. Putas.

E tantas outras reminiscências!

A vida se movia.

E um gosto amargo na boca.

Ele abriu os olhos. E derrotado deixou a poltrona verde-musgo que pertencera ao pai. Deu dois passos incertos na direção da carta. E se ajoelhou diante dela.

A carta!

Textura. Forma. Cor. E o seu nome escrito em letras redondas e bonitas e femininas.

Tomou o fósforo. Riscou. A pequenina chama surgiu. Pegou a carta entre os dedos adormecidos da sua mão esquerda e a contemplou por alguns segundos.

Não! ele não tinha o maldito nome na lista telefônica. Afinal, ele não tinha telefone. E logo fez da carta, minúscula fogueira.

Cinzas.

Houvera o ímpeto de abri-la. De pelo menos descobri-la o nome. Um murmúrio de felicidade lhe cutucou o coração. As janelas berraram; queriam ser abertas.

Não! ele já não podia suportar tanta realidade. E com o cérebro pressionado pela inesperada luminosidade das letras, ele implodiu os restos de espelhos que ainda o faziam lembrar.

     e assim,

     num bocejo,

     optou mais uma vez pela comodidade da sua absoluta inexistência.

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Conto publicado originalmente no livro "Contos Diminutos", 1999, Marcos Guinoza, edição do autor. Produção: Marcia Okida. 

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