quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Doze girassóis numa jarra

Ilustração: Sabrina Aires

Antes um relógio... resmungou Cris, daquele jeito de sempre: frases incompletas, bruscas interrupções, infinitivos. Como assim? perguntei. Ele coçou o queixo, sinal visível de contrariedade; não insisti. De súbito: por que Van Gogh? ele quis saber. Maldade. Pura maldade. Que tal: porque achei bonito. Não, ele não aceitaria. Na verdade, eu não sabia o que responder. Maldita hora em que resolvi emoldurar aqueles girassóis! Era menos complicado quando as paredes do meu pequeno quarto estavam vazias de tudo: de qualquer sentido, de qualquer questionamento.

Você sabe quem foi Van Gogh? Nada disse; saí.

... fui ao banheiro, expliquei. Quanto à sua pergunta, não, eu realmente não sei quem foi Van Gogh. Senti meu rosto enrubescer. Cris ensaiou um sorriso. E eu, bem, eu podia ter deixado as paredes do jeito que estavam; por que diabos fui colori-las? como você mesmo disse, que fosse apenas um relógio... Calei; sucumbi ao serpear daquele silêncio; e o silêncio dele era deliberado; tinha o propósito mesquinho de mostrar-me o quanto ridículo eu era.

Ah, eu cortaria uma orelha! temo que sim. Nada é demais para quem é violentado no beco dos constrangimentos!

Esperei.

A Fernanda tem a foto do Che no quarto dela, lembrou Cris, o Betinho prefere Jesus Cristo; e o Zeca, automóveis, completei. Rimos. Acendemos um cigarro de maconha; rimos mais. Você é mesmo um imbecil! eu disse, ou melhor, insultei, mas juro que não tive a intenção; ele cessou o riso, eu também. Que coisa de louco! preciso procurar um psicanalista urgente!

Cris voltou à expressão rude inicial; acusatória. Continuei sentado, cabisbaixo, atemorizado pelo porvir nebuloso que se delineava no semblante dele. Era hora de ceder, nada mais. Não tenho o dom do drible; não enfrento o estrabismo de certas amizades. E foi por isso que eu decidi entregar os pontos: bêbado de ódios, arranquei os girassóis da parede com violência tarantina. Cris não moveu um músculo sequer; ficou lá, respirando como sempre.

E os girassóis, coitados, voaram pela janela.

Voltei. Caí em mim. Tinha ficado o prego, um solitário prego que agora nos engolia a atenção.

Porra, o que mais ele quer!? Saí.

... fui tomar um copo d’água, expliquei. Cris ainda engolido pelo prego, assoviava uma canção qualquer. E com o coração em reza, ajoelhado diante dele, eu sorria um sorriso bobo, saciado.

Esperei.

Eu também não sei quem foi Van Gogh, disse Cris.

Maldade. Pura maldade.

Não consegui ouvir mais nada do que ele dizia. Tombei no sofá, boquiaberto. Afinal, tudo era uma simples questão de gosto. E eu, bem, eu sou um tolo! Corri à janela, os girassóis já não estavam mais sobre os paralelepípedos; caía uma garoa chata e previsível. Cris se aproximou, quase tocando a úlcera que me doía. Mergulhei fundo no azul luminoso daqueles olhos, e pude ver, pela última vez, onde estavam os meus girassóis.

**********
Conto publicado originalmente no livro "Contos Diminutos", 1999, Marcos Guinoza, edição do autor. Produção: Marcia Okida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário