quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Ereção

Ilustração: Leonardo Pereira

Mordi a orelha de Lídia. Um minúsculo pedaço de Lídia no céu da boca. Cuspi a carne mole sobre o chão de azulejos flor-de-lis do nosso banheiro. Tesouras, formicidas e cabelos negros; mãos de zé-pedreiro abertas, outras mãos suaves agora garras de ave rapace. Mordeu o meu tórax em pêlo, Lídia. O colar de dedos a jugular, o abdome em desespero. 

Deslizei pela parede, ela correu infeliz de mim. Tinha os olhos sustenidos.

Ofegante, a língua raspando o canto da boca, fiquei de joelhos caídos. Do supercílio esquerdo, o sangue suarento transborda e goteja. A febre. Eis a água fria do chuveiro a chicotear o corpo em delito de Lídia. Água que a nódoa desinfecta.

     — Você foi longe demais, Henrique! ela disse.

Tínhamos ido, nós... O ecstasy das noites que terminam com o sol a meio-céu, porno-transe sem espasmos de realidades possíveis. Éramos, enfim, milhões... Lídia, porém, a deixar-se penetrar a razão, excogitava em mim apenas, os sabores diabólicos do desejo que nos consumia a cada acotovelar-se.

     — Você não vem, Henrique?

Não, eu não podia. A demência me puxava os pés. E aprisionado em cada espelho d’água, pedaços disformes de mim se desmanchavam pelos cantos. Tudo ficou muito escuro de repente. Eletricidade zero. O azulejo solto. A flor em cacos. Cócegas. Fim.

...

E quando a navalha fez dos meus olhos meia-lua, Lídia, excepcionalmente bela, estava ao meu lado. Notei que lhe faltava um pedacinho de orelha, detive a lágrima em rosto de cera. E para espanto de Lídia, o meu espanto demorou apenas o curto tempo de uma ereção.

     — Uma ereção sem gozo, ela disse.

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Conto publicado originalmente no livro "Contos Diminutos", 1999, Marcos Guinoza, edição do autor. Produção: Marcia Okida.

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