quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A estrutura da lesma

Ilustração: Juliana Fernandes

Videoteipes. Fluídos humanos: porra, suor, muco, mijo; e punhetas de Otávio. Fluídos humanos: porra! Filmes. A câmera em punho. Os detalhes ampliados. O nojo de Catarina a cada gota. Partículas secretas. Nojo. A lente capta o movimento da lesma, do microscópico, do repugnante: o prazer!

Videoteipes. Mentiras. O anonimato de quem observa. O nome falso registrado na portaria. Jean de pau duro. Disfarces. Vias de mão dupla. E Otávio não suporta o jorro do gozo. As unhas de Catarina, os dentes, as unhas: dores!

Videoteipes.

     — Não dá mais, Otávio! ela disse.

Videoteipes.

     — Não dá mais, Otávio! ela repetiu.

E a lesma afogada na porra de Otávio, sobre a barriga de Otávio, a lesma em pausa contraída. E Jean delirava. Tinha os olhos fechados. Anestesia. Torpor. Os músculos distendidos, doloridos.

Catarina sangrava!

Videoteipes.

As cores borradas do motel barato. Deles, apenas Otávio fumava. Cortes rápidos na superfície da pele; os poros. Nas paredes, fotografias pregadas: peitos, nádegas, paus; o olhar noturno de uma dama de crisântemos e de perfeitos, delicados calcanhares.

Lá fora, a cidade. A solidão dos homens.

Crime.

Gozo secreto.

Deliciosas secreções!

E molhadas: gosmas, grudes. Nas curvas, odores.

A nudez branca de Jean. E Catarina de joelhos, a boca aberta, engolida pelo pau de Jean. E outras punhetas de Otávio. A câmera em punho, filmes!

     — Não dá mais, Otávio! ela insistiu.

E cansada foi embora.

Jean respirava. Otávio também. E, tesos ainda, virgulados, continuaram, os dois, a estudar, em detalhes, a estrutura da lesma.

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Conto publicado originalmente no livro "Contos Diminutos", 1999, Marcos Guinoza, edição do autor. Produção: Marcia Okida.

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