segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Lost in translation

Da série Crônicas Nipônicas

Esse cruzamento em Shibuya, no centro de Tokyo, deve ser o mais movimentado do mundo

Cá estou, parado no meio de uma gigantesca estação de metrô. Placas luminosas indicam direções. Mil direções. Mil possibilidades de descobertas. Por qual seguir? Tanto faz, penso. Desde que nos leve para fora, onde qualquer paisagem surgirá surpreendente. Estamos em Tokyo. JK está ao meu lado, desnorteado diante da correria japonesa. É um vai e vem decidido, de passos rápidos. Todos sabem para onde ir, menos nós.

Na escada rolante, permanecemos à esquerda, deixando os degraus nos levar sem urgência. A direita deve ser mantida livre para a passagem dos mais afoitos. E eles passam. Apressados. Indiferentes. Famintos. Enquanto nós – curiosos de primeira viagem – olhamos, observamos, refletimos: que país é este?

Estacão de metrô de Shinjuku, em Tokyo, com mais de 80 saídas

No fuso horário, o Japão está apenas 12 horas na nossa frente. Mas, basta sair da estação, para perceber que estamos pelo menos meio século atrás dos japoneses. Assistiu “Blade Runner”? É o caos futuro: superpopulação, sopas fumegantes, letreiros coloridos, frio de zero grau, “Lost in Translation” e um louco no meio da multidão anunciando o fim do mundo (ou seria o início de uma nova era? Não sei. Ele profetizava em japonês).

No Japão, forças do passado e do futuro se contrapõem. Ou se completam? Ou se aniquilam para o surgimento de uma nova espécie?

A ocidentalização pós-Segunda Guerra despirocou o Império. O Japão não tem mais vergonha de ser o que é. De se apresentar ao mundo de quimono ou sob os figurinos “extravagantes” da garotada de Harajuku – “extravagantes” entre aspas, porque no Japão nada é extravagante, combina perfeitamente com o visual pop kitsch high-tech de suas grandes avenidas e centros comerciais. Avenidas que escondem becos sem saída, vielas residenciais de outros séculos passados.

Loja de eletrônicos em Akihabara, Tokyo: como se entender?

Entre a delicadeza das cerejeiras e o visual de fliperama, o silêncio dos templos e o money do hiperconsumo, a beleza de sua gastronomia e o fast-food solitário dos seus suicidas, o Japão se equilibra entre tradição e modernidade, organização e bagunça. Parece ter absorvido o Ocidente e inventado uma nova civilização: nem oriental nem ocidental, apenas e unicamente japonesa.

Foram somente 20 dias de longas e exaustivas caminhadas por vários pontos do Japão. Com certeza, insuficientes para desvendar uma sociedade complexa, cheia de contradições e mistérios. Mas uma viagem assim, para bem longe das coisas do Brasil, faz a gente voltar higienizado, a fim de morrer em um quarto de hotel frio e distante.
 

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