domingo, 30 de janeiro de 2011

Lou quer casar

 Quer casar comigo?

Sábado à noite. Sem grana nem para comprar cigarro, vesti uma bermuda e fui até o caixa eletrônico do shopping Frei Caneca – mais conhecido como GAY Caneca (o shopping é bastante frequentado por homossexuais. Virou referência GLS em São Paulo).

Depois de sacar o dinheiro, aproveitei para dar uma passada no supermercado do shopping. Entre potes de maionese, pacotes de macarrão e caixas de sucrilhos, vários casais gays faziam compras.

Dois homens, escolhendo sabão em pó juntos num supermercado, não deixam nenhuma dúvida sobre quem são.

Não sei se existe algum estudo sério sobre relações estáveis entre homossexuais. Queria saber: cresceu o número de gays em busca de parceiros fixos?

Palpite: acho que sim. Acho que a imagem estereotipada de que todo homossexual é promíscuo e sem vergonha está perdendo força em meio à luta pela aprovação da união civil entre pessoas do mesmo sexo e pela criminalização da homofobia.

Vou além: acho que estamos saindo da “adolescência” – período em que os gays, para afrontar a sociedade e marcar território, tiveram que mostrar o pau e a bunda em praça pública – e estamos entrando na “vida adulta”, quando nossa prioridade é outra: sermos respeitados como cidadãos.

É uma evolução natural. Antes, brigávamos para “existir”; hoje, brigamos para “coexistir”, fazer parte, estar inserido.

Ao ver tantos casais gays no supermercado do Frei Caneca, lembrei do meu amigo Lou. Ele quer casar. Quer sossegar o facho. Diz que não nasceu para “essa vida gay”.

É mais ou menos isso mesmo que acontece quando casamos (e procuramos ser fiéis). Deixamos a “vida gay” para trás e nos tornamos convencionais e caseiros. Quase “heterossexuais” em nosso cotidiano.

Fazer compras juntos é apenas um dos muitos afazeres domésticos que passamos a dividir com quem está ao nosso lado. Há contas a pagar, louça para lavar e projetos para o futuro. Uma vida a dois que até as nossas avós aprovariam.

Um comentário:

  1. My 2 cents: sou casado há onze anos com um cara e nosso compromisso não é de fidelidade sexual e sim de honestidade e sinceridade. Não temos necessidade de sair por aí "ficando" com geral, mas em onze anos já aconteceu, e quando aconteceu, fomos honestos um com o outro. Mas isso não tem nada a ver com ser homo, e sim com ser honesto consigo mesmo e com o outro. Eu já tive longos e profundos namoros com mulheres (e todos sempre souberam que eu era bissexual), e o acordo funcionava do mesmo jeito. Afinal, ninguém acha que um casal hetero passa mais de dez anos sem nunca pular a cerca, né? Como diria o Padre Quevedo, isso não écziste.

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