quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O alienígena comedor de cérebros

Ilustração: Felipe Zemaitis

Deitada sobre a colcha de retalhos de vestidos velhos, vestidos de velhas histórias de amor e de tantas outras catástrofes, Celeste folheava um livro de letras miúdas e páginas fartas. Tinha o rosto tranqüilo, noturno.

O silêncio das paredes a incomodava menos agora.

Acostumara-se a ele.

Ao silêncio.

Do outro lado da cidade, Rodolfo voltava do banheiro: os dentes brancos, as mãos limpas, o desejo de novo escoriado.

Punhetas.

E os ponteiros do relógio giravam.

A prostituta tinha os olhos caídos; a elasticidade frouxa das bocetas de um dólar. Outro homem. Outro mesmo homem. E do leite miserável, ele sugava as últimas gotas.

Pulgas. Porra. E bolor.

E os ponteiros do relógio giravam.

Jornais de ontem lhe cobriam o corpo franzino. E debaixo do teto esburacado de estrelas, Alexandre dormia o meio-sono dos anjos de pés sujos. Na calçada, ratos e baratas voadoras; o mijo dos bêbados; a fome dos alienígenas.

Eles!

E os ponteiros do relógio giravam.

Na cama, agarrado à insuportável nudez dos anjos, Rodolfo não conseguia adormecer. O lençol lhe espetava de novo o desejo. E faminto, o pênis rijo e babado, ele mordia o travesseiro: o travesseiro já tantas vezes mordido.

Lá fora, ele sabia, corpos expostos nos açougues da madrugada.

Rodolfo vestiu a sua melhor roupa preta, calçou botas também pretas. E saiu. Um alienígena comedor de cérebros.

E Celeste, amortalhada, retalhava outros velhos vestidos. Cansara do livro de letras miúdas e páginas fartas. Livros, concluiu, servem apenas para que possamos matar o tempo que temos em demasia. E com a tesoura entre os dedos, fazia cortes dispersos.

E a cada corte, um rasgo na memória.

Lembranças retalhadas.

Celeste quis fumar.

Os cigarros haviam acabado.

Ela vestiu a sua pior roupa, calçou sandálias amarelas. E saiu. Tinha o rosto bonito; sutilmente deformado pelas revoltas luzes da noite.

Celeste ouvia uma antiga canção italiana.

O automóvel tremelicava.

E os ponteiros do relógio giravam.

Boceta arrombada e seca, a prostituta se equilibrava sobre os sapatos de salto alto. E couro paraguaio. Ainda sobrara um pouco do leite miserável. E o menino chamado Alexandre queria mamar nas tetas caídas da puta velha.

Ele dormia em calçadas.

Era filho da puta e dormia em calçadas cheirando a mijo. E não que a prostituta se preocupasse com isso. Na verdade, ela deixara o menino aos cuidados da senhora louca que mora sete palmos acima de Thanatos, o senhor de botas pretas.

A senhora louca chamada Vida!

Foda-se! ela dissera tantas vezes para o filho.

E Alexandre fodia. Aos doze anos, já fodia outros anjos de pés sujos. E prostitutas que lhe negavam o leite miserável. E principalmente alienígenas comedores de cérebros.

O menino fodia.

E os ponteiros do relógio giravam.

Para saborear com prazer suicida o cigarro que acabara de comprar, Celeste parara o automóvel não sabia onde. Luzes apagadas, apenas a pequenina brasa do cigarro reluzia cada vez que ela feria os pulmões com chicotadas de nicotina.

Câncer.

De um automóvel estacionado próximo ao local onde ela estava, saem um menino de pés sujos e um homem vestido de preto, calçando botas também pretas. Celeste não havia notado a chegada do automóvel. E curiosa ficou à espreita.

Gritos!

O homem que mais parecia um alienígena comedor de cérebros empurra o menino contra a parede. O menino chamado Alexandre xinga Rodolfo de algum nome que Celeste não consegue ouvir muito bem.

Um tiro!

E os cérebros do menino espalhados pelo chão!

A prostituta caminhava lentamente pela noite vazia. Acabara o leite miserável. O pouco dinheiro das horas escondido entre as tetas caídas. E exausta pensou desatenta em Alexandre.

Foda-se! ela disse uma vez mais.

E o menino fodia.

Celeste amorteceu o grito. Acendeu outro cigarro. E à toa foi contabilizar os cérebros de Alexandre espalhados pelo chão. O menino tinha o corpo estranhamente retorcido: como uma escultura de Rodin, ela disse para si mesma.

E sorriu.

E ouviu um ruído vindo das árvores.

E correu para o automóvel.

E os ponteiros do relógio giravam.

Rodolfo voltava do banheiro, o desejo de novo escoriado. Outra noite. Outros anjos de pés sujos lhe esperavam nos açougues da madrugada.

Ele vestiu a sua melhor roupa preta, calçou botas também pretas. E saiu.

A prostituta sorria um sorriso pelancudo.

E deitada sobre a colcha de retalhos de vestidos velhos, vestidos de velhas histórias de amor e de tantas outras catástrofes, Celeste folheava o mesmo livro de letras miúdas e páginas fartas. A lembrança dos cérebros de Alexandre espalhados pelo chão a incomodava menos agora.

acostumara-se àquela lembrança,

assim como ao silêncio arrebatador

das paredes que a cercavam. 

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Conto publicado originalmente no livro "Contos Diminutos", 1999, Marcos Guinoza, edição do autor. Produção: Marcia Okida.

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