quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O não-beijo

Ilustração: Cristiano Medeiros 

Temo encontrá-lo. Desejo violentamente encontrá-lo. Que rosto espero ansioso? Que olhos? Quais? O tempo avança; e recua à hora marcada. Breve... Deus, é já! Basta dobrar aquela última esquina. Paro! Tenho os nervos à flor-da-pele. E por falar em nervos, recebi algumas flores ainda ontem. Hoje estou morto. Fui ao cinema cheirando a mofo. Ninguém percebeu. Os vivos têm narinas entupidas de amor próprio.

Comprei o jornal. Procurei o meu nome em meio às notícias. Ivana estava lá. Oferecendo o seu corpo por uns trocados. Bela Ivana. Outra morta como eu.

E o mundo é dos vivos!

Antes do encontro, fumo. Preciso fumar! Meu joelho dói. Qual deles? Meu joelho dói sempre que sinto frio; um frio na barriga.

Recuo.

Guilhermina era apaixonada por flores. Eu sabia. Flores plásticas, sem perfume. Bijuterias baratas lhe carcomiam o corpo. Olhos de vidro, dentes esmaltados. E a angústia transbordando pelas orelhas perfuradas. Natureza morta, fruteiras. Guilhermina é assim. Porcelana. Ou pelúcia. Ou quem sabe enlatada.

E de Guilhermina, eu desejava um beijo apenas.

Fodíamos sem beijos. E isso me doía o joelho. Qual deles?

É hora. Não tenho mais como evitar. É hora de encontrá-lo. De quem sabe violentamente desejá-lo. Dobro a última esquina.

Ninguém.

Ele não veio. Inexiste ainda. É tão-somente uma voz. Fumo. Preciso fumar! Meu joelho dói! Qual deles? Meu joelho dói sempre que silencio os ódios. Deus, é loucura! E eu aqui inexplicavelmente entorpecido. O não-beijo de Guilhermina me toca de repente os lábios. Ela quer aquele arranjo de flores; de flores plásticas, sem perfume.

     — As flores por um beijo, ela disse.

Mas eu preciso do dinheiro dele. E ele ainda não veio.

Como Ivana, também publicara o meu nome no jornal, também oferecia o meu corpo por uns trocados. Renato fora o primeiro a me telefonar. Renato é o nome dele. Uma voz apenas. Acertamos o preço de cada músculo, de cada nervo, de cada curva. Marcamos o encontro. E eu me achei violentamente ansioso por encontrá-lo.

Perigo! O desejo repartido ao meio.

     — Oi.

A voz sem fios. Que rosto espero? Que olhos? Quais? A luz postiça que vem dos postes me lembra Guilhermina. Ele se aproxima. Toma forma, enfim. É bonito. E nem é tão velho como dissera. Tem os olhos quase infantis, um tanto homicidas.

Renato.

Lembro-me vagamente do que aconteceu. Renato me chamou à casa dele; fomos. E eu não pude cumprir o acertado. Quis desistir de algum dinheiro. Em troca, pedi a ele que me devolvesse alguns músculos, outros nervos e muitas curvas. O perigo passara, e meu desejo era de novo exclusivo de Guilhermina.

Ele sorriu desconfiado.

E estilhaços de vidro cortaram o meu rosto. Negror morto.

Nada mais vi.

E nada mais verei.

O cheiro de éter me embrulha o estômago. Imagino o branco-bolor que me cerca. Tenho os olhos estilhaçados. Ruídos, preces, bandejas prateadas. O hospital parece movimentado. Os hospitais são sempre movimentados. Deus, é dor demais!

Entra alguém.

Dedos frios ferem os meus lábios. Cai a boca sobre a minha.

O beijo...

Porcelana. Ou pelúcia. Ou quem sabe enlatada. É Guilhermina, eu sei. Coberta como sempre por fina película: sintética; de longe, transparente. Guilhermina é assim.

E some sem palavras. Fica o beijo. O não-beijo de repente.

e descubro:

antes era preciso vê-la,

para imaginá-la o sabor, o cheiro, o plástico das flores.

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Conto publicado originalmente no livro "Contos Diminutos", 1999, Marcos Guinoza, edição do autor. Produção: Marcia Okida.

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