quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O riso do morto

Ilustração: Cristiano Medeiros

Casemiro estava ao lado do morto. Já perdera a conta de quantos cumprimentos havia recebido. Foram tantos! E todos aparentemente sinceros. Na sala onde o corpo estava sendo velado, gente demais. Amigos. Familiares. Todos choravam. Ele não.

E chorar é preciso, pensou.

Casemiro tentou uma vez mais. Contraiu o peito. A retorcer os músculos, buscava uma lágrima que fosse! Uma-zinha. Pequenina. Gélida. Uma-lágrima-zinha qualquer. Em respeito ao riso do morto. Em obediência aos olhares dos vivos.

Que os vivos morram! desejou.

Áridas memórias. E a sequidão nos olhos. Casemiro procurava por todos os cantos da história — da Sua história —, lembranças que pudessem fazê-lo chorar: amores, amizades, livros, gonorréias, filmes, resfriados, músicas, ereções, aplausos, tombos, nada. A vida, ele finalmente percebia, passa em círculos-horários. Tédio.

     — É hora de fechar o caixão, ele ouviu alguém dizer.

Pânico. Foi o que Casemiro sentiu naquele instante. Não porque chegara a hora de fechar o caixão, mas por ainda não ter chorado uma lágrima que fosse: uma-lágrima-zinha qualquer! E olhou a sua volta: olhos vermelhos. E olhou para o morto: mãos sobre o morto. E ouviu urros estranhos. E preces desvairadas; onomatopéias. 

Um abraço. Dois. Três. Quantos mais?

E todos queriam abraçá-lo. E todos choravam. E quando o caixão foi fechado e ficou somente o reflexo do rosto de Casemiro na madeira marrom-lustrosa. O reflexo de um rosto escandalosamente risonho. O riso de quem desaprendera a chorar. A velha ao lado dele teve a bondade de tombar desfalecida sobre o morto. E todos olharam para ela.

E Casemiro teve tempo de esconder do escândalo, o riso.

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Conto publicado originalmente no livro "Contos Diminutos", 1999, Marcos Guinoza, edição do autor. Produção: Marcia Okida.

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