quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Os vivos

Ilustração: Leando Altafim

Do automóvel, Celena aplaude o espetáculo de Gabriel, o mendigo. E o gargalhar insano a rasgar-lhe a garganta. O tilintar das moedas. O avizinhar-se das mãos: mãos ornadas de raros diamantes, outras mãos mordiscadas de brasílica miséria.

O farol vermelho.

Na calçada, Diógenes fala ao telefone. E sob o sol-sertão das doze horas, ele sente o corpo derreter dentro dos panos amarrotados. Tem as pernas doloridas. A emergência da fome a violentar-lhe os sentidos. E roubado uma vez o chão em que pisava,
Diógenes caía.

     — Ai, meu Deus...

E Deus não está nem aí.

O berro de repente dos pneus riscando o asfalto: o choque. O esculpir retorcido das latarias. Acidente, balbúrdia.

E Reginaldo, banguela; estilhaçado em vidros agora.

No outro automóvel, Leandro está preso ao cinto. E desfeito em sobressalto, sente o corpo estremecer sob o tecido italiano. Ia ao encontro de Maria Lúcia. Do mais que perfeito amor de Maria Lúcia, duvidava. E tal dúvida o enlouquecia. Ali, preso ao cinto, sob o olhar besta-fera dos que o cercam.

O cruzamento interditado.

E o menino Joseíldo zapea entre o acidente e as imagens da tv na vitrine: tv muda, hipnótica. O menino nascido daquelas cenas impunes, da puta que o pariu naquele barraco cheio de infâncias perdidas.

E de nariz escorrendo, de pés descalços, de barriga-verminose, Joseíldo veio ser grafite na superfície áspera do concreto.

     — Aquele já era, arrisca Esaú.

Diógenes o encara com olhos de rímel. O revólver em papel-jornal. E um gargalhar insano a rasgar-lhe a garganta. Diógenes caía. Mas antes da dor final e insuportável da queda, decidira apertar o gatilho da própria extrema-unção.

E com as pernas doloridas, dobra a esquina da balbúrdia.

     — Ele está vivo! grita Humberto.

No velho automóvel, Reginaldo movia os dedos. Esaú repuxa o lado esquerdo do rosto redondo e cravado de borbulhas. Os lábios levemente retraídos. Decepção!
Ele queria a proximidade da morte alheia.

Luzes giratórias. Esparadrapos. E sirenes.

Celena baixa o vidro do automóvel. O motor em ponto morto. E outro gargalhar insano a rasgar-lhe a garganta. Ela tem pressa; tem a vida cronometrada, óbvia. E preenchida por cosméticos afazeres.

O bafo da balbúrdia lhe machuca os ouvidos.

     — Cadê o outro cara? pergunta Esaú.

E Leandro não está mais preso ao cinto. O olhar besta-fera dos vivos a procurá-lo pelos lados; nem sinal. Ele precisa flagrar Maria Lúcia. Ia ao encontro dela. E caminhando agora sob o sol-sertão das doze horas, já nem lembra do acidente que causara.

Um cão o persegue. A dúvida!

     — Ai, meu Deus...

E Deus, de novo, não está nem aí.

Reginaldo, banguela, movia os dedos. Reginaldo, estilhaçado em vidros, não suporta o choque: morre. Esaú quase gargalha, insano.

O cadáver em papel-jornal.

E acalmada, a multidão se dispersa.

No boteco ali próximo, Humberto observa o ir e vir dos vivos. A repentina pressa. Os diálogos de dez palavras. A arte de falar sobre as reviravoltas do tempo. Humberto está cansado; tem o olhar preso àquelas mãos trêmulas e mordiscadas de brasílica miséria.
É Gabriel, o mendigo. O olhar bêbado mirado em coisa alguma. A dose de cachaça. O tilintar ruidoso das moedas.

Celena!

Celena tem um canivete encostado ao pescoço.

É Joseíldo, o menino.

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Conto publicado originalmente no livro "Contos Diminutos", 1999, Marcos Guinoza, edição do autor. Produção: Marcia Okida. 

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