terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Ninguém é inocente ao fumar

Marlene Dietrich

Era 1964. Roberto Carlos cantava para a turma da Jovem Guarda: “Sigo incendiando bem contente e feliz/ Nunca respeitando o aviso que diz/ Que é proibido fumar”. Naquela época – ingênua e delirante – tudo podia. Até fumar. E os chatos eram menos chatos. Não faziam cara feia toda vez que alguém acendia um cigarro. Aí veio o alerta: o fumo está associado ao câncer e às doenças cardiovasculares.

A indústria do tabaco já sabia desde antes, mas deu de ombro. Foram necessários 40 anos e alguns processos milionários para que ela admitisse o alto teor tóxico contido no produto que fabrica. Todo mundo deve saber, mas não custa repetir: são cerca de 4.720 componentes altamente prejudiciais ao organismo, como nicotina, alcatrão, monóxido de carbono e amônia, além de “ingredientes” ainda mais corrosivos (urânio, polônio 210, carbono 14, entre outros). É essa combinação explosiva e letal que o fumante inala toda vez que acende um cigarro.

Com um discurso cheio de cinismo e deboche, a indústria do tabaco boicotou o quanto pode as informações científicas. Para ter uma ideia, até a década de 1990, os espertalhões se negavam a reconhecer até o mais óbvio: que a nicotina provoca dependência. No livro “O Cigarro” (Publifolha, 2001), Mario César Carvalho solta o verbo: “A indústria do tabaco cometeu uma sucessão de fraudes, propagou mentiras com ares de controvérsia científica e enganou os consumidores num nível provavelmente inédito na história do capitalismo”.

Há um filme bem bacana sobre o tema: “O Informante” (1999), com Al Pacino e Russell Crowe. Baseado em fatos reais e dirigido por Michael Mann, o filme mostra a cruzada de dois homens contra o poder quase inabalável de uma grande corporação tabagista. “O Informante”, indicado a sete estatuetas do Oscar, também carrega boa dose de ironia. Afinal, o longa – um libelo contra o fumo – foi produzido em Hollywood, e Hollywood sempre foi parceira fiel da indústria do tabaco.

Na era de ouro do cinema americano, o cigarro foi personagem presente em dezenas de filmes. Por isso, não é errado afirmar que foram eles que transformaram o ato de fumar em arma de sedução, acrescentando glamour e elegância às baforadas exaladas na telona por suas estrelas máximas. Parecia que o cigarro e seus congêneres adicionavam virilidade a um Humphrey Bogart ou leveza às coreografias de Fred Astaire. Divas como Marlene Dietrich, Marylin Monroe e Lauren Bacall também sacavam suas cigarreiras toda vez que eram convocadas para interpretar o papel de fêmeas fatais. Só para citar um exemplo, em “Casablanca” (1942), um dos maiores clássicos do cinema hollywoodiano, a maioria dos personagens fuma. A belíssima exceção é Ingrid Bergman, no papel da jovem Ilse.

Comercial do cigarro Hollywood

Capaz de influenciar comportamentos e decretar modismos, Hollywood popularizou de tal maneira o fumo que virou marca (brasileira) de cigarro. Quem tem mais de 30 deve se lembrar das propagandas. Num rompante esquizofrênico, os publicitários misturaram nicotina, esportes de aventura e o rock-farofa de artistas como Peter Frampton, Kansas e Journey. Ao fim, vinha o bordão: “Hollywood, o sucesso!”. De fato, os anúncios fizeram tanto sucesso que até discos com a trilha sonora dos comerciais foram lançados. Como se sabe, esporte e cigarro não combinam. Mas o automobilismo, principalmente a Fórmula 1, nunca teve vergonha de ganhar rios de dinheiro divulgando “caubóis” e “camelos” durante suas corridas. Hoje, a propaganda de cigarro é proibida. E, para quem não sabe, o Brasil, este país de um futuro que nunca chega, demorou mais de 30 anos para vetar os “reclames” esfumaçados. Nos Estados Unidos, por exemplo, não é permitido anunciar cigarro na TV desde 1971.

QUEM QUISER QUE SE FUME

Até o fim do século XIX, fumar cigarro era raridade. Esse cenário mudou quando, em 1880, o americano James A. Bonsack inventou uma máquina capaz de enrolar 200 cigarros por minuto, o que criou condições para o aparecimento da grande indústria. A partir daí, o consumo explodiu. Segundo pesquisa, em 1900, os americanos fumavam cerca de 2 bilhões de cigarros por ano; em 1930, esse número havia subido para 200 bilhões. Sem qualquer controle, a praga se disseminou rapidamente pelos cinco continentes.

Além do cinema, a literatura também tem uma longa relação de cumplicidade com o tabaco. É comum encontrar textos em que os escritores prestam homenagem (por vezes dúbia) ao “fumo abençoado, que é amargo e abjeto”, como escreveu Manuel Bandeira. Para Ruy Castro, o cigarro “é nosso cúmplice, o parceiro com quem, sem trocar de lábios, dialogamos em segredo”. Segundo o escritor, “ninguém é inocente ao fumar”. Já Rubem Braga, depois de largar o cigarro, até tentou “salvar” outros fumantes. Não deu muito certo. No fim de uma de suas crônicas, ele decreta: “Mas chega, não falarei mais nisso. Fumar foi das piores bobagens que fiz na vida, mas não pretendo convencer ninguém. Já tentei fazer isso, e o sujeito ainda caçoa da gente, de cigarro no bico. Ah, quem quiser que se fume”.

Com o esclarecimento dos malefícios causados pelo fumo, o cigarro, neste início de século XXI, se transformou em inimigo público número 2 (à frente dele, só a obesidade). Perseguidos, xingados, cerceados, enquadrados em espaços minúsculos, os fumantes ainda formam um exército numeroso. Só na China, 300 milhões de pessoas queimam mais de 1 trilhão de cigarros por ano. Muitos tentam abandonar o vício. Em torno de 80% falham. Malogrados e com aquele indisfarçável “bafo de cinzeiro”, ainda temos de passar pelo vexame de escancarar nossas placas bacterianas ao dentista.

Texto publicado originalmente na revista Smile. 

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