quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Transformar | Transgredir | Transfundir

Lê Almeida, dono da gravadora Transfusão Noise Records

Cidade partida, o Rio de Janeiro “continua lindo”, pelo menos sob a perspectiva sempre romântica do morro do Corcovado, onde o Cristo “de braços abertos sobre a Guanabara” permanece estátua. Lá embaixo, na região conhecida como Baixada Fluminense, o bicho pega. Mas os altos índices de violência não intimidam quem está a fim de montar barricadas sonoras para se fazer ouvir sob o tumulto social que marca a história do lugar.

Em Vilar dos Teles, distrito de São João de Meriti, município da região metropolitana do Rio, o músico Lê Almeida fez da própria casa QG da Transfusão Noise Records: frente de resistência do rock alternativo da Baixada Fluminense.

Fundada em 2004, a gravadora é ponto de encontro de bandas do circuito indie da região e de outros cantos do Brasil. Ali, Lê & amigos juntam ideias, guitarras e microfonia para registrar em CD o rock de grupos que se movimentam sem depender da má vontade da falida indústria fonográfica. Passaram por lá bandas como Tape Rec, Coloração Desbotada, Carpete Florido, Sofia Pop, Silvo, Electric Lo-fi Orchestra, Cretina, Novadelic, The John Candy, Top Surprise, Looking For Jenny, Bad Rec Project.

Os nomes das bandas dão uma ideia do som que sai dos alto-falantes da gravadora: rock cantado em português ou inglês, com guitarras distorcidas e pitadas de psicodelia. Pink Floyd e Sonic Youth no mesmo liquidificador sonoro.

O esquema da Transfusão é baseado em uma espécie de “ação entre amigos”, com custos de produção divididos entre bandas e gravadora. Tudo é feito de modo artesanal/caseiro: da gravação do CD, passando pelos videoclipes, até a arte da capa. E as vendas acontecem em pequenas lojas que trabalham em consignação, barracas montadas em shows ou pela internet (transfusaonoiserecords@bol.com.br). É o “faça você mesmo” elevado à enésima potência de som & fúria.

Lê Almeida explica: “Cada parte do disco é feita em um lugar diferente. Os envelopes plásticos a gente mesmo precisa cortar, não existe no tamanho que usamos. No CD, a gente utiliza uma máquina para pôr labels. Quase todo o processo é feito de forma artesanal. Não usamos máquinas especializadas. Só a prensagem das capas é profissional”.

Assim, na base do improviso e da paixão pela música, a Transfusão, até novembro de 2010, gravou 36 CDs, entre álbuns cheios, EPs, compilações e um disco tributo: Don’t Stop Now, com 31 canções da banda norte-americana Guided By Voices gravadas por grupos de fundo de quintal de várias partes do país.

A Transfusão é o epicentro de um “movimento” que, segundo Lê, desde o início de 2010 tem chamado a atenção de ouvidos atentos ao que acontece fora do jabaculê radiofônico. “A Baixada é muito maior em tamanho e dimensão de criatividade do que se imagina.” Em parceria com o coletivo Geração Delírio, a gravadora promove shows numa festa chamada Cabaré, onde bandas da Transfusão se apresentam.

“Já produzimos muitos discos com apenas um microfone ligado direto no computador”, revela Lê. Hoje, a gravadora utiliza uma modesta mesa de quatro canais. Sala, cozinha, banheiro e o quintal da casa do músico são usados como estúdio e cenários para clipes. “Se eu tivesse mais grana, produziria com equipamentos de melhor qualidade. Mas acho divino que as pessoas ouçam uma gravação fora do convencional.”

Artesanal e, ao mesmo tempo, tecnológico, o processo de gravação da Transfusão Noise Records é apenas um entre milhares de exemplos de um mundo em transformação onde cada pessoa é produtora do seu próprio conteúdo – não precisando mais depender da “esmola” das grandes corporações.

Na cultura do P2P (peer to peer), qualquer um pode “interferir” na evolução da história. Para isso, basta ter um computador conectado à rede mundial e, como Lê Almeida, boas ideias na cabeça.


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Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!
 

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