terça-feira, 22 de março de 2011

Adeus Knut, obrigado pelas lembranças

Der Spiegel | Por David Crossland | Tradução: Deborah Weinberg

Thomas Dörflein e Knut

Knut, o urso polar de Berlim mundialmente famoso que morreu no sábado (19/3) foi um produto da era da celebridade. Contudo, não foi apenas sua história mais estranha que ficção que o tornou único –este urso tinha carisma e sua falta será fortemente sentida. Berlim perdeu um ícone e deveria erguer um monumento em sua memória.

Os contos de fada não deveriam terminar dessa forma. Knut, o urso polar que deu tantas alegrias a tantas pessoas, merecia viver feliz para sempre. Ele foi privado desse final, e milhões de pessoas em torno do mundo estão sentindo a perda após sua morte prematura no sábado, com apenas quatro anos e três meses.

No domingo, centenas de pessoas se reuniram no zoológico de Berlim para deixar flores e mensagens. “Obrigado por todas as lembranças felizes”, “adeus, Knut”, “nós o amamos tanto”. Muitos choravam. “Ele era como um filho para nós. Nós o vimos crescer”, disse uma idosa, com lágrimas rolando pelo rosto.

As pessoas passaram muito tempo olhando para seu cercado vazio. O sol não trazia qualquer conforto.

A cena era ainda mais comovedora porque foi exatamente há quatro anos, no dia 23 de março de 2007, em um dia igualmente ensolarado de primavera, que Knut entrou alegremente para o palco mundial e no coração das pessoas quando fez sua primeira aparição pública no zoológico de Berlim. Foi uma notícia global. Redes de televisão internacionais deram cobertura, caminhões de transmissão via satélite estacionaram na frente de um rinoceronte espantado e centenas de fotógrafos e jornalistas lutaram para ter um vislumbre do ursinho.

Um fã clube global

Ali estava ele, cercado pelo ministro do meio-ambiente alemão na época, Sigmar Gabriel, e Thomas Dörflein, seu tratador dedicado. Em segundos, aquela bola de pelo branca com olhos pretos como dois botões, brincalhona e traquinas, conquistou um fã clube que ia de Berlim a Sidney.

Por que tanta comoção? É verdade que Knut era o primeiro urso polar nascido no zoológico de Berlim em três décadas, mas novos nascimentos da espécie em cativeiro não eram incomuns em torno do mundo.

Não se pode negar que a mídia o tornou um astro. Ele foi um produto do culto da celebridade, e vendia jornais. O “Spiegel Online” está entre os sites de notícias que deu a ele total cobertura, porque tantas pessoas liam suas histórias. O zoológico de Berlim, inicialmente com relutância, acompanhou o alvoroço para ganhar dinheiro, mas também teve pouca escolha.

Isso, contudo, é apenas parte da história. Knut foi um urso especial porque ele tinha verdadeira personalidade. Naquela primavera e verão de 2007, ele entreteve até 15.000 visitantes por dia, mordendo as costas de Dörflein, se escondendo sob um cobertor verde ou caçando uma bola.

Amigável demais para um assassino

Mais tarde, ao crescer, ele se levantava nas patas posteriores e parecia estar acenando para os visitantes com as patas da frente. Ele até brincava com os turistas, pegando sua bola com o focinho e a lançando por cima do fosso para eles jogarem-na de volta. Ele fazia um verdadeiro show. Pode parecer banal, mas ele tinha uma cara amigável, amigável demais para ser o predador letal que deveria ser. Essa era a essência de seu charme.

Se fosse levado para o ambiente selvagem, pode-se imaginar que passaria o tempo sentado em um pedaço de gelo, acenando para as focas e esperando que uma traineira passasse e jogasse alguns croissants –sua comida predileta- e uma bola de futebol.

Ativistas pelos direitos dos animais dizem que seu comportamento quase humano era parte de um distúrbio por ter sido criado com mamadeira e por sua estranha vida pública, enfrentando flashes e constantes gritos de “Knuuuuut” de seus fãs.

Talvez. Mas a vida conta histórias estranhas, e a de Knut teve uma inevitabilidade trágica. Se o zoológico de Berlim não o tivesse criado em uma incubadeira e com alguém o alimentando após sua mãe, Tosca, rejeitá-lo, ele teria morrido. E vamos ser francos, ele era impossivelmente fofo, mesmo para padrões de filhotes de ursos polares. Se não fosse, os tabloides de Berlim não teriam gerado tamanho circo de celebridade ao publicar suas fotos.

Suas fotos mastigando uma escova de banheiro, dormindo em sua caixa de brinquedos, deitado nas costas com as patas para cima ou em pé com sua língua pequena caindo e segurando as mãos de Dörflein, seu pai postiço e amigo dedicado, eram irresistíveis.

Knut fofo de morrer?

Quando um especialista em vida selvagem exigiu que fosse sacrificado para poupá-lo dos problemas de comportamento que sofreria por ter sido criado por mamadeira, a revolta pública era previsível, e o urso se aproximou ainda mais do estrelato. Matar o fofo do Knut? Assassinar esta bolinha de pelos divertida? Vocês estão loucos? Apesar do pedido nunca ter sido levado a sério, a história recebeu atenção internacional. Quando Knut foi apresentado ao público, sua celebridade já estava sendo alimentada e uma vida de montanha russa de fama e glamour esperava o filhote inocente.

Logo ele foi capa da revista “Vanity Fair” com Leonardo di Caprio e gerou uma série de produtos, desde ursos de pelúcia até marshmallows e figuras de porcelana. O zoológico de Berlim até teve que contratar seguranças para ajudar a organizar as multidões.

O relacionamento de Knut com Dörflein, seu tratador barbudo, que dormia em um colchão ao lado de seu protegido, dava-lhe mamadeira de mingau de aveia especial, o fazia arrotar e esfregava óleo de bebê em seu pelo e pacientemente brincava com ele, era um excelente entretenimento e deliciava as multidões.

Durante todo aquele verão, Knut fez as pessoas esquecerem-se de seus problemas. Era um conto de fadas ensolarado. O espetáculo do homem e a besta interagindo tão alegremente satisfazia o desejo das pessoas por harmonia. Talvez tenha sido uma ilusão, mas parecia real o suficiente. Ele se tornou um símbolo da cidade. Visitar Knut passou a ser parte do itinerário de todos os turistas, tão importante quanto ver o Portão de Brandenburgo. Milhões vinham visitá-lo.

O destino, porém, o esperava. Seu encantamento foi desaparecendo na medida em que se tornava um brutamontes. Dörflein recebeu instruções estritas da administração do zoológico para não se aproximar mais dele. O número de visitantes caiu. Knut começou a parecer solitário em seu cercado. Mas seus fãs de carteirinha, muitos deles senhoras de meia idade que o visitavam quase diariamente, permaneceram leais. E o zoológico continuou festejando seu aniversário com um bolo –de peixe e legumes congelados- todo dia 5 de dezembro.

A morte de Dörflein

Em setembro de 2008, quando Dörflein subitamente morreu de ataque cardíaco, a história de Knut teve seu primeiro episódio trágico. Será que superaria a morte de seu amigo? A vida de Knut estaria malfadada? Será que também teria um triste fim, como tantas crianças que atingem o estrelato e não sabem como lidar com a fama mais tarde?

Tentativas de fazer com que fizesse amizade com uma fêmea, Gianna, que juntou-se a ele em seu cercado por alguns meses, teve sucesso mediano. Ela roubava a comida dele e batia em seu focinho, mas no final, eles pareciam se dar bem quando ela voltou para o seu zoológico em Munique.

Em 2009, os fãs de Knut montaram uma campanha para que o zoológico abandonasse um projeto de mudar Knut para outro zoológico.

Depois, em 2010, ele foi transferido para um cercado maior com três ursas polares mais velhas, inclusive sua mãe, Tosca. Os fãs de Knut disseram que ele não conseguia lidar com as provocações que se seguiram. A causa da sua morte ainda não foi estabelecida, mas especialistas em animas e fãs dizem que pode ter sido uma crise epilética gerada pelo estresse.

“Ele não estava feliz. Elas ficavam rosnando para ele e o jogando na água”, disse ao “Spiegel Online” Annemarie Bürger, aposentada que vinha ver Knut toda semana, no domingo, entre soluços. “Ele morreu cedo demais”.

Roswitha Klekotta-Last também o velava. Ela disse: “Ele vai se reencontrar com Dörflein lá em cima agora. Isso é um pouco de conforto.”

Em memória de um conto doce e triste

O zoológico de Berlim, compreensivelmente, nos últimos anos tentou tratar Knut como qualquer outro urso polar. Mas as circunstâncias estranhas de sua vida o tornavam único. Essa contradição pode ter –inevitavelmente- contribuído para sua morte prematura.

O que resta? O zoológico de Berlim disse que talvez vá empalhar Knut, mas seus defensores acham a ideia insuportável.

Nunca houve um enterro de animal no zoo de Berlim, e simplesmente incinerá-lo como qualquer outro animal pareceria profundamente inadequado depois de tudo que Knut fez pelo zoológico, por Berlim e para a consciência do sofrimento dos ursos polares diante do aquecimento global.

Independentemente do destino do corpo de Knut, a cidade deveria erguer um monumento em sua honra, grande e proeminente, para lembrar aos visitantes pelas próximas décadas do conto doce e triste de um urso inocente que encantou milhões de pessoas.

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Texto reproduzido do UOL Notícias Internacional - Der Spiegel

4 comentários:

  1. Lindo texto, traduziu o sentimento do mundo inteiro.Espero que façam logo um filme sobre ele.
    Knut e Thomas Dörflein são eternos, a amizade entre eles ficará para sempre em nossos corações.

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  2. Knut e Thomas Dõrflein foram a personificação dos nossos sonhos de amor, fraternidade,tolerância ,respeito às diferenças, compreensão,dedicação e pureza de sentimentos dos quais tantos necessitamos. Um homem e uma suposta"fera" que nos deram uma lição do que é o verdadeiro Amor. Realmente Knut e Thomas Dõrflein foram muito especiais e nunca devem ser(e não serão)esquecidos, para o bem de todos nós, pois Knut e Thomas Dõrflein foram um presente de Deus.

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  3. O texto é lindo , coerente, resume bem os nossos sentimentos; mas o título foi infeliz,pois Knut talvez tenha sido mais sábio que muitos de nós, pois apesar das suas adversidades soube desfrutar o melhor da vida, que é viver e ser feliz. Descanse em paz meu amor!!

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  4. Desculpe, depois foi que vi que "Idiota Feliz" é o nome do blog e não uma referência a Knut. A idiota agora fui eu! Encare como excesso de amor e zê-lo o equívoco.

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