quarta-feira, 16 de março de 2011

A honra japonesa e os 50 de Fukushima

O perigo da radioatividade no Japão

A palavra “kamikaze” significa “Vento de Deus”: “kami” = deus | “kaze” = vento.

“Kamikaze” é como os japoneses chamam um tufão (daí o nome: “Vento de Deus”) que, segundo relatos, salvou o Japão de uma invasão do exército mongol liderada por Kublai Khan, em 1281.

Foi a partir da Segunda Guerra Mundial que a palavra mudou de sentido, pelo menos para os ocidentais. Hoje, quando pensamos em “kamikaze”, logo vem à lembrança os ataques suicidas dos pilotos japoneses que arremessavam seus aviões contra navios inimigos.

No Japão, morrer em nome da honra ou da pátria faz parte da tradição do país. O rígido código de ética dos samurais (bushido) ensina que é melhor morrer com honra que viver sem. Entre esses guerreiros, havia até um cerimonioso ritual suicida chamado “seppuku” (cortar o ventre).

O “heroísmo” nipônico – morrer pelo Japão, se preciso for – é colocado à prova mais uma vez pelos 50 técnicos que continuam trabalhando na usina nuclear de Fukushima em um ato desesperado de tentar evitar uma catástrofe ainda maior.

Vestidos com roupas de proteção e máscaras, os técnicos estão expostos a condições altamente perigosas. Eles têm consciência dos riscos que correm, mas estão dispostos a se sacrificar para tentar salvar o povo japonês de uma tragédia nuclear.

Não há como ficar indiferente a atitudes assim. Não há como evitar a incômoda pergunta: “Será que eu seria capaz de agir com tamanha nobreza, arriscando a minha vida pela vida dos outros?”

Creio que a grande maioria de nós pularia fora, preferindo ser “um covarde vivo a um herói morto”. Afinal, é comum passarmos por situações bem menos perigosas no dia a dia e, geralmente, fingirmos que não estamos vendo nada. Leia trecho de um relato do Antonio Prata, que presenciou a violenta abordagem policial a um mendigo:

“Enquanto um policial dava choques no homem e fazia perguntas, o outro revirava seus pertences com o bico do coturno [...]. O barulho de matraca da pistola amarela [uma taser gun], tec, tec, tec, tec, tec, como a ignição de um fogão que demora a acender, era abafado pelos gritos do mendigo, recebendo descargas na parte de trás das coxas e nas costas. Mais ainda, era abafado pelas vozes na minha cabeça: ‘Vai lá!’, dizia-me uma delas. ‘Você que veio de uma família estruturada e caminha em direção a um restaurante: vai ficar aí, parado? Outra voz, a voz covarde, me dizia: “esquece. Não é o caso de peitar dois policiais, ainda mais sendo paulista, no Rio de Janeiro. E se te jogarem no camburão? Se te derem choque com a arma amarela?’ A voz corajosa insistia. “É seu dever!’”

O Antonio Prata deixou pra lá. Seguiu para o restaurante. Agiu como a maioria de nós em situações desse tipo: se acovardou.

Alguns podem dizer que são situações diferentes. Sim, são muito diferentes. Mas a essência é a mesma: arriscar-se pelo outro que você nem conhece.

Que os corajosos 50 “kamikazes” de Fukushima consigam cumprir sua missão e saiam de lá não como heróis mortos, mas como mártires vivos. 

6 comentários:

  1. Ë a consciência desses, sim, verdadeiros heróis, que de fato predomina - eles jamais poderão ser considerados vítimas.

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  2. MINHA HOMENAGEM A ESSES HEROIS, OBRIGADO POR VCS EXISTIREM!!!

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  3. Um gesto de coragem que faz parte da Cultura japoneza, digno de compartilhar. Parabéns! pela postagem e pelo blog.Por aqui eu fico. Um grande abraço.

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  4. num mundo cheio de falsos heróis, surgem agora 50 pessoas dispostas a sacrificar a sua vida para tornar possível a vida de outros.
    Aos 50 de fukushima o meu muito obrigado

    http://brigadascinzacoelho.blogspot.com/2011/03/tsunami-atinge-o-japao-apos-terremoto.html

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  5. Fácil dizer "é seu dever", como se não fosse dever de todos coibir e protestar contra ato tão covarde e autoritário. Tantos viram - você inclusive - e NINGUÉM fez nada. E se TODOS fossem lá defender o mendigo? E se TODOS fossem à delegacia se preciso? E se TODOS testemunhassem contra os policiais? Será que NADA aconteceria?

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  6. Hei, bom dia, estou te seguindo pois gostei muito do teu espaço!
    A sua postagem me fez refletir sobre muitas coisas em relação ao meu comportamento.
    E pensei, as vezes para mudar o mundo, só precisamos de um único elemento chamado coragem.
    A exemplo daquele menino Australiano que reagiu a um ato de Bullying, e ficou famoso no mundo inteiro.
    Eu já presenciei cenas de covardia humana, na minha frente, mas eu estava sozinho, e o medo me inibiu de fazer qualquer coisa que ajudasse, o meu semelhante em apuros.
    Gostaria mesmo de fazer algo pelos outros, pois tenho a consciencia que ajudando aos outros estaremos ajudando a nós mesmos.
    No entanto, vivemos um mundo onde o "ser humano", tomou a forma e assumiu a sua verdadeira condição de besta, onde ele é capaz de fazer barbaridas com o seu semelhante, então eu lhe pergunto, o meu medo, que me torna um covarde, não seria apenas uma reação natural de sobrevivencia?

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