quarta-feira, 2 de março de 2011

Meu monstro de estimação

John Galliano

Sei lá, acho que a gente necessita dos “maus”. Os “maus” fazem a gente se sentir do lado “do bem”, deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo. Explico.

O “mau” John Galliano foi afastado da Dior depois de ser acusado de antissemita, dizer que “ama Hitler”, blá-blá-blá. Logo, o Twitter virou Tribunal de Justiça (coisa cada vez mais comum) e o estilista – até ontem amado por muitos – foi julgado, achincalhado, ironizado pelos “bonzinhos” de plantão.

Sim, a atitude de Galliano é condenável e deve ser combatida com rigor. E é aqui que eu queria chegar. Sempre que alguém – famoso ou não, bêbado ou não – diz asneiras, comete brutalidades, revela sua “maldade”, a gente logo se debanda para o lado “do bem” para marcar posição. Nessas horas, somos todos “santos” e o “capeta” é sempre o outro: o “bode expiatório” da vez.

É como se a “maldade” alheia nos confortasse, confirmando nossa crença de que somos sempre “bons” e jamais agiríamos da mesma maneira. Será?

Acho que casos como o de Galliano têm outra serventia além de conscientizar de que o preconceito não é legal. São úteis também pra gente acalmar o monstro que existe dentro de cada um de nós. Eu tenho o meu. Você, com certeza, tem o seu.

Esse monstro pode assumir formas diversas. E costuma se manifestar em momentos de tensão – ou de bebedeira, como aconteceu com o estilista. E acredito que ninguém está isento de ter o seu “minuto de fúria”. Entenda: "Quem diz não ter preconceitos, odeia a todos igualmente”.

Combater o mal é nossa obrigação. Mas também é importante reconhecer que esse mesmo mal faz parte da gente. Só assim podemos domá-lo e, na maior parte do tempo, mantê-lo em cativeiro. Às vezes, ele escapa. Quantas pequenas maldades cometemos no dia a dia sem perceber? Você já xingou (ou pensou em xingar) alguém de "baiano", "viado", "vaca gorda"? Pois é...

Repito: a atitude de Galliano é condenável. Mas quem se aproveita do episódio para posar de irmã Dulce talvez seja ainda mais perigoso. 

3 comentários:

  1. Uma coisa é xingar, em hora de raiva, um judeu de "judeu safado". Ou um homo de "viado escroto". Isso é o mesmo que xingar um homem heterossexual de "canalha", simplesmente. Não existe aí um xingamento por ser judeu, ou homo etc. Outra coisa é dizer textualmente que Hitler devia ter terminado o serviço, que judeus (ou homos ou isso ou aquilo) são uma merda mesmo, etc. Aí existe um julgamento pela etnia/sexualidade etc., e ISSO SIM é reprovável.

    Não sei se quem não tem preconceito odeia a todos igualmente. Estou longe de ser irmã Dulce, mas tenho que pensar se realmente tenho preconceitos ou se tenho simplesmente conceitos, pois não costumo realmente julgar aquilo que não conheço. Por exemplo, em geral não gosto de evangélicos, mas conheço alguns exemplos de evangélicos legais, por isso não se pode dizer que tenho preconceito. Minha faxineira é evangélica e nós sempre conversamos sobre religião. Gosto muito dela, ela continua evangélica, eu continuo criticando a religião dela (e as outras) e nos damos muito bem, somos até amigos.

    Se eu estou puto com uma gorda, xingo-a de vaca gorda. Se for gordo, de gordo escroto. Mas não tem preconceito nisso. Primeiro, porque eu sou gordo. Segundo, porque a maioria das minhas ex-namoradas e namorados é/foi gorda(o) (adoro gordinhas e gordinhos). Ou seja, preconceito zero, é apenas uma forma de se referir a uma pessoa. Chamar uma pessoa gorda de gorda é preconceito? Não sei como. Agora, dizer que todo gordo é isso ou aquilo é outra coisa bem diferente, e ISSO sim é preconceito.

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  2. Johann, como escrevi: a atitude do Galliano é condenável e o cara deve ser execrado. Mas acredito, sim, que quando xingamos um judeu de "judeu safado" tem um fundo de preconceito aí, mesmo que inconsciente. Caso contrário, por que incluir "judeu" no xingamento? O mesmo vale para "viado escroto", "baiano ignorante" etc. Ninguém é inocente. Todos têm seu "lado negro". O que defendo no post é que a gente se conscientize disso para o bem de todos. Quanto mais a gente reconhecer o "mal", principalmente aquele existe em nós, mais poderemos amanssá-lo. Abs.

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  3. "Caso contrário, por que incluir "judeu" no xingamento?"

    É apenas uma referência. É como chamar o louro de louro, o branco de branco, o negro de negro. "Judeu safado" significa, tão somente, um judeu que é considerado safado. É bem diferente de "todo judeu é safado", "só podia ser judeu" etc.

    Como eu disse: eu gosto de gordinhos(as). E gosto de ser gordinho, não tenho atração estética nem sexual por gente magra. Quando eu chamo de alguém de "gordo escroto", estou chamando um sujeito que é gordo de escroto. Não estou dizendo que ele é escroto por ser gordo.

    Não estou bancando advogado do diabo, minha consideração é sincera e honesta, pode ter certeza. Vejo essa questão por um ponto de vista diferente do seu.

    " O mesmo vale para "viado escroto", "baiano ignorante" etc. "

    Bem, discordo totalmente disso.

    "Ninguém é inocente. Todos têm seu "lado negro". "

    Quanto a isso, concordo plenamente.

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