sexta-feira, 11 de março de 2011

A mulher livre

Opressão masculina

Ela é mulher autossustentável e esclarecida. Estudante, combateu o regime militar. Morou na Alemanha. É professora universitária. Tem ideias progressistas, “de esquerda”. Gosta de Chico, Caetano e Gil. Casou e descasou três vezes. Decidiu não ter filhos: “Filhos, melhor não tê-los...”. Tem um gato. E queda irresistível por rastafáris: Bob Marley, Jimmy Cliff, o vendedor de artesanato e cabelos trançados da praça da República.

Mas, antes de tudo isso, ela é mulher.

Mulher que se apaixona pelo “homem errado”. Mulher que sente tesão pelo “homem errado”. Mulher que busca refúgio nos braços do “homem errado”. Mulher que se torna vítima do “homem errado”.

Certa vez, o “homem errado” apareceu de machadinha (!) em punho. Queria intimidar, intimidou: ela & os amigos. O medo logo se insinuou em seu semblante. A mulher corajosa e independente e risonha se desmanchou em gentilezas ao nóia viciado em crack, resmungando direitos, a fim de azucrinar e, talvez, partir o crânio de alguém ao meio.

Ela não aguentou. Reagiu. Gritou destrambelhada. Os amigos a afastaram. O nóia se foi, prometendo revide. A mulher, depois de quatro anos sob ameaça, foi até a delegacia. Denunciou o nóia. Quer o fim abrupto de uma história de terror que ela mesma alimentou, prorrogou, estendeu até não poder mais, até seu coração murchar.

Quem sabe, agora, o nóia a deixe em paz...

Ela demorou para acionar a polícia. Deixou-se levar pelo medo, pela vergonha de assumir em público que era mais uma vítima da violência masculina. Logo ela, autossustentável e esclarecida, como podia estar passando pela mesma humilhação vivenciada por donas de casa dependentes, submissas e pouco instruídas?

A mulher livre pensou que podia resolver as coisas sozinha, como sempre fez. Errou. Por orgulho ou arrogância. Errou ao se calar. Ao tentar compreender o agressor com sua visão humanista/ingênua do mundo. Esqueceu que agressor é agressor, independente do grau de instrução e do teor alcoólico.   

Um comentário:

  1. Marcos.

    Nossa !!!! sou eu !!!!
    Ler isso é como olhar em algum espelho e ver o que reflete.... e por vezes a gente se perde em espelhos por aí...
    Voce acertou tanto quanto o presente ( um CD) que me deu no natal de 2002 em que construiu meu retrato musicado versão 2003/2004.
    Eu, como mulher livre vou fazendo acertos e erros...em versões diferentes e renovadas.... 2003,.... 2004,..... 2005,.... 2011...
    Gostei.
    bjs,

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