quinta-feira, 24 de março de 2011

No Japão, não é normal enterrar os mortos

The New York Times | Por Michael Wines 

Soldados enterram corpos no Japão

Este não era nem o local nem o momento para uma despedida apropriada: não aqui, no topo de uma colina na qual está instalado o incinerador de lixo da cidade. E não agora, 12 dias depois que um tsunami varreu do mapa esta cidade costeira e destroçou milhares de famílias e amizades.

No entanto, nesta tarde de quarta-feira (23) de muito vento, Fujimi e Ekuko Kimura observavam enquanto um grupo de soldados retirava o caixão de Taishi Kimura, marido e filho das duas, da carroceria de um caminhão do exército, e o colocava, juntamente com 35 outros, em uma vala estreita, dividida em sepulturas por pedaços de compensado.

Esse foi o mais grosseiro dos funerais para uma família que já vinha tendo que arcar com uma tristeza insuportável. Coube aos Kimura – mais tarde, depois que os soldados foram embora – transformar um sepultamento em massa em uma despedida tocante e graciosa.

No Japão, não é normal enterrar os mortos, e muito menos colocar dezenas de corpos lado a lado em uma vala comum. A cremação é ao mesmo tempo uma cerimônia quase universal e um ritual importante que faz parte de uma elaborada tradição funerária profundamente enraizada no budismo.

Mas, ao longo da costa nordeste do Japão, a tradição colidiu neste mês com uma realidade matemática. O número de mortos e desaparecidos devido ao tsunami de 11 de março já chegou a mais de 22 mil indivíduos, e nas pequenas aldeias e vilas rurais onde houve o maior número de mortes, existe uma quantidade excessiva de corpos a serem cremados.

Higashi-Matsushima, uma cidade portuária de 43 mil habitantes, recuperou 680 corpos desde que foi atingida pelo maremoto, e quase 500 pessoas estão desaparecidas e consideradas mortas. O único e antigo forno crematório da cidade só tem capacidade para quatro corpos por dia.

“Se nós fôssemos cremar todos os corpos, isso exigiria muito tempo”, diz o porta-voz da prefeitura da cidade, Takashi Takayama. “Os corpos estão neste momento sendo mantidos em dois locais, e tememos que eles possam começar a se decompor”.

Assim, relutantemente, Higashi-Matsushima resolveu enterrar os mortos. Pelo menos dez outros municípios na zona costeira atingida seguiram este exemplo ou estão prestes a fazer isso.

A cidade enterrou os seus primeiros 24 corpos na última terça-feira, após obter a permissão dos sobreviventes. Na quarta-feira, um grupo de cerca de 100 pessoas de luto se reuniu no terreno em que fica o incinerador de lixo, uma propriedade municipal vazia situada em um lugar alto, para o segundo dia de sepultamentos.

O grupo era heterogêneo. Muitos dos presentes eram pessoas que foram evacuadas, usando roupas doadas ou as mesmas calças jeans e os mesmos tênis que usavam quando fugiram do tsunami. Alguns deles, que tiveram mais sorte, usavam sapatos formais e roupas pretas de luto.

Todos eles tinham uma coisa em comum: uma história terrível de tristeza e perda que variava apenas no que se refere a nomes, relações e intensidade do azar que sobre eles se abateu.

A mulher de Yasuamasa Kyomo – casada com ele havia sete anos – ouviu o alerta de tsunami, e corria com o filho de cinco anos de idade, que ela tinha acabado de pegar no jardim de infância, para tentar chegar ao segundo andar da sua casa. O corpo dela foi encontrado em 15 de março. “O para-brisa do carro foi quebrado”, conta Kyomo, 52. “O meu filho foi arrastado pelas águas e ainda está desaparecido. Se tivessem conseguido avançar uns cem metros mais, eles teriam escapado. Tudo ocorreu em uma questão de uns poucos minutos”.

Fujio Saito, o marido de 61 anos de idade de Sachito Saito, era deficiente físico. A filha dela, Hiromi, 29, escutou o alerta de tsunami e saiu para resgatá-lo, mas não conseguiu chegar à casa dele, de frente para o mar, e ainda se encontra desaparecida. O marido dela foi mais tarde identificado pela carteira encontrada no seu corpo.

“Ele tentou correr”, diz Saito, 53. “Mas não conseguiu”.

E há o caso de Fujimi Kimura, 31, que estava trabalhando, separada da sua casa, do marido e dos dois filhos pelo rio, quando o tsunami atingiu a área. A onda destruiu todos os meios de comunicação e a única ponte, deixando-a isolada e incapaz de voltar para a sua família.

Durante quatro dias, ela suportou a preocupação intensa com o destino da sua família fazendo trabalhos voluntários em um centro de refugiados. No quinto dia, uma embarcação a levou até o outro lado do rio. Ela foi à prefeitura de Yamoto, onde encontrou o nome do marido, Taishi, também de 31 anos de idade, em uma lista de mortos.

“Os avós dos garotos tinham saídos para pegá-los na escola”, conta ela. “Eles levaram os meninos para o segundo andar da nossa casa, mas o meu marido não conseguiu chegar lá. Ele foi carregado pelas águas em frente aos olhos deles”.

Um trailer portátil na extremidade do terreno em que fica o incinerador abriga um pequeno santuário com velas e dois vasos de flores, onde amigos e parentes dos mortos podem acender incenso e se abrigar do vento de inverno.

Cada caixão foi descarregado por uma equipe de 12 soldados que usavam roupas camufladas e luvas brancas. Seis soldados carregaram o caixão com precisão militar até a sepultura; os outros seis marcharam, fazendo uma escolta silenciosa. Outros sete aguardavam na sepultura. Uma saudação silenciosa foi feita após cada corpo ser baixado na vala de sepultamento.

A burocracia empenhou-se ao máximo em conferir aos enterros da quarta-feira aquela dignidade típica dos funerais genuínos, para mascarar um pouco aquilo que esses enterros improvisados são realmente: uma resposta inevitável a um potencial problema de saúde pública. No final do dia, monges budistas vieram até o local para orar diante das sepulturas.

Ao terminarem a tarefa, os soldados entraram no caminhão e foram embora, deixando os parentes de luto sozinhos. Como se para marcar o momento, o vento desapareceu, e o sol surgiu entre as nuvens por um breve período. Um funcionário da prefeitura levou os parentes até a vala para uma despedida final.

Cada família tinha algo a deixar para os seus entes queridos mortos. Às vezes pouco mais do que uma lata de café ou uma bola de arroz comprimido, segundo uma tradição local que considera comida e dinheiro como elementos essenciais para a longa viagem ao além. Aqueles que perderam tudo não tinham nada mais do que algumas flores embrulhadas em um jornal, colocadas em um vaso de plástico na cabeceira de cada sepultura.

Fujimi Kimura encontrou muita dificuldade para dizer adeus a um marido cuja presença só parecia aumentar na morte.

“No início, eu achei que tínhamos sorte por estarmos vivos. Mas, à medida que os dias foram se passando, eu comecei a encarar a realidade”, disse Fujimi Kimura. “Agora, já se passaram 12 dias, e eu ainda não sou capaz de aceitar o que aconteceu – não consigo aceitar o fato de o meu marido ter partido. Ele era um homem muito bom. Ele amava os filhos, e tomava conta deles, e as crianças realmente gostavam dele”.

Durante os últimos momentos privados diante da sepultura de Kimura, Ekudo, a mãe dele, inclinou-se e colocou lá um buquê de flores e dois ramos recém cortados de uma ameixeira, prestes a florescer. Fujimi levantou a tampa do caixão de madeira. Sobre o corpo do marido, ela colocou bolas de arroz, uma lata de café, uma banana e alguns ienes. A seguir, ela colocou dentro do caixão objetos da casa que eles compartilhavam, lembranças de uma vida que acabou: algumas das roupas favoritas de Kimura e a espada de bambu que ele usava para a prática de kendo, a arte marcial japonesa que ele amava.

“Eu não posso me encontrar com você agora”, disse ela, antes de fechar o caixão pela última vez. “Mas sem dúvida nós nos veremos no futuro”.

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Texto reproduzido do UOL Internacional - The New York Times ("No Japão, sepultamento apressado dos mortos colide com tradição do país")

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