quinta-feira, 31 de março de 2011

Ser índio, ser gay, ser ignorado

 Natalício Guedes, 22, da etnia ticuna e gay assumido

Antes de os portugueses descobrirem o Brasil e bem antes de o Brazyl descobrir a Lea T., os índios ticuna já pintavam o pescoço com jenipapo para ter a voz grossa e os casamentos entre índios & índias eram definidos na infância.

Agora, um pequeno grupo de índios ticuna, a etnia mais populosa da Amazônia brasileira, não quer mais saber de seguir a tradição. Os índios começam a “sair do armário”.

Há historiadores que dizem que não havia relatos anteriores da existência de homossexuais entre os ticuna. Mas o antropólogo Darcy Ribeiro escreveu que há registros de homossexualidade entre índios desde pelo menos o século 19.

Acredito mais no Darcy.

E acredito que deve ser barra pesada a vida de um índio gay. Se nós, moradores de grandes metrópoles supostamente mais “civilizadas”, temos que enfrentar o ódio dos homofóbicos a cada dia (né, Marcelo Tas?), imagine o rapaz gay que vive numa aldeia indígena lá no meio da selva?!

Entre os ticuna, assim como entre nós, os índios gays assumidos são alvos de pedras, latas e chacotas. E chamados pejorativamente de “meia coisa”.

Mas eles são índios, certo? E, desde que os portugueses descobriram o Brasil, os índios são tratados como sub-espécie. Nem lembramos que eles ainda existem (muito menos os índios gays) e que são os donos legítimos de uma tal Ilha de Vera Cruz que, séculos depois, virou país de uma nova classe C – C de Cafona – que devora/consome com voracidade brutal tudo que encontra pela frente.

É, pensando bem, o Brasil ainda vai permanecer por longo tempo nas mãos dos brutos. Entre os índios, entre nós, não há como escapar da selvageria dos "cabeças de bagre". Pior: agora os "cabeças de bagre" estão se achando gente porque podem comprar iogurte com laxante e TV de LCD. 

E os índios gays, hein? Não vamos criar nenhuma política pública para protegê-los das pedradas? Ops, esqueci: os índios não existem, né?
 

2 comentários:

  1. Mas o Marcelo Tas não tem uma filha lésbica? :S

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  2. Por outro lado, não é certo querer acabar com as tradições masculinizantes dos tikuna e outros povos,as quais são voltadas para a formação dos meninos.
    Acho que o problema deveria ser resolvido criando-se nas sociedades instâncias para os dois grupos (gays e heteros) sem querer impor a visão de um grupo para toda a sociedade.
    Como ninguém é melhor que ninguém, é tão errado perseguir homossexuais como tentar combater a masculinidade e os valores masculinos dos hetero. Para mim, cada grupo deve ter o direito de rejeitar uma opção sexual que lhe desagrade, não interessa qual seja.
    Se heteros não podem rejeitar a homossexualidade, gays não podem rejeitar a heterossexualidade. Se gays não podem manifestar afeto em público, heteros também não devem ter esse direito. Se gays querem bares só para eles, heteros também podem querê-lo.
    Temos que primar pela justiça e pela igualdade.
    Acho que deveríamos criar espaços privativos para gays, para lésbicas, para heteros e espaços comuns a todos. Isso inclui: bares, banheiros, igrejas, escolas, shows, teatros etc. deixando às pessoas a opção de escolherem.
    Assim acabaria esse problema e o dilema da heterofobia/homofobia seria resolvido pacificamente.

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