segunda-feira, 14 de março de 2011

Viva a mulher da vida

Gabriela Leite. Foto: Christian Gaul

Domingo, 13/03, o "Fantástico", da TV Globo, veiculou reportagem sensacionalista sobre o turismo sexual no Brasil. Em tom moralista, os apresentadores Zeca Camargo e Patrícia Poeta, expressando espanto, anunciaram que a atividade "mancha a imagem do Brasil lá fora". Prefiro a indagação da ex-puta Gabriela Leite: "Quando chega o verão, todo mundo ganha dinheiro com turismo. Por que as putas não podem?".

Abaixo, reproduzo entrevista com a fundadora da Daspu publicada na ffwMAG! 16. 

VIVA A MULHER DA VIDA 
Por Luciana Pessanha

Gabriela Leite nasceu em São Paulo, na Vila Mariana, numa família de classe média. Aos 20 anos, em 1971, de saco cheio de ser secretária, foi parar na boca do lixo. De lá pra cá, tornou-se a diretora da ONG Davida, fundadora da grife Daspu, publicou o livro Filha, Mãe, Avó e Puta, articulou-se com redes latino-americanas e mundiais de defesa dos direitos das prostitutas e hoje é ouvida na ONU, quando o assunto é prostituição. Inteligente, divertida e articulada, continua boêmia e fez questão de conversar tomando uma cervejinha, num botequim na Glória, no Rio de Janeiro, onde só gente bacana, das internas, frequenta. Conheça o pensamento dessa puta líder, que está aos poucos dando dignidade para a profissão mais antiga do mundo.

ffwMAG! – Como você virou prostituta?
Gabriela Leite – Entrei na USP em 1970. Lá conheci pessoas ligadas à revolução cultural, sexual, o pessoal da guerrilha, mas, por conta da minha personalidade, me transei mais com o povo da porra-louquice. Ao mesmo tempo tinha uma vida sacal: era secretária da Shell, morava no Jabaquara, andava de ônibus pra caramba e, depois da faculdade, ainda queria ir ao bar Redondo, frequentado por gente do Teatro Oficina e do Arena. Lá se discutia muito sobre sexualidade, mas era papo, e comecei a me encher dessas pessoas que só falavam e nada, enquanto via do outro lado da rua mulheres glamorosas, de longo, chegarem a uma boate de prostituição chamada La Licorne. Um dia, sozinha, decidi que queria fazer aquilo na vida.

ffwMAG! – Foi uma decisão intelectual?
GL – Meu pai era crupiê de cassino, dormia de dia e trabalhava de noite. Eu queria usufruir da boêmia. Passei um tempo tomando coragem. Um dia, eu tinha brigado com meu chefe, faltei à faculdade e fui a uma boate na boca do luxo. Entrei vestida de secretária! Era uma barulheira, uma escuridão, não curti. Subi a rua, parei num botequim e dois homens vieram conversar comigo. Contei minha triste história e um deles disse que uma mulher era dona de um apartamento na boca do lixo. Era um prédio inteirinho de prostituição, mulheres nas portas dos apartamentos, homens subindo e descendo escadas. Entrei num filme de Buñuel.

ffwMAG! – Você ainda era virgem?
GL – Não, mas tive o maior medo. A cafetina me arrumou um cliente e disse: “Ela é nova aqui”. Ele respondeu: “Todas dizem que são”. Fomos para o quarto, fiquei sem saber o que fazer e comecei a chorar. Ele disse: “Fica com esse dinheiro, volta pra sua casa, que isso não é lugar pra você”. Todo homem é assim, coitadinho. Achei que não podia ser tão covarde e com o segundo cara foi melhor. Esse dia foi muito feliz, quando saí de lá me senti livre de todas as empresas onde já tinha trabalhado.

ffwMAG! – E a faculdade?
GL – Continuei por dois anos, depois desisti. Faltou um ano pra me formar socióloga.

ffwMAG! – Como foi a mudança da boca do lixo, em São Paulo, para a Vila Mimosa, no Rio?
GL – Em 1979, a gente fez uma manifestação na praça da Sé contra o Wilson Richetti, um delegado de polícia que estava torturando prostitutas. Saiu na Folha, e a Ruth Escobar foi me procurar, oferecendo o teatro dela. Fizemos uma plenária, foi um escândalo e ele foi afastado. Se a gente conseguiu isso, podemos conseguir muitas coisas, pensei. E resolvi conhecer outras zonas de prostituição. Em 1980, fui para a zona boêmia de Belo Horizonte. Ganhei tanto dinheiro que já estava até pensando em desistir do movimento. Comprei um terreno, ia construir uma casa. Mas meu sonho era conhecer o Rio de Janeiro e uma colega me convidou. Fui para a boca maldita, na Prado Júnior. Quando meu dinheiro estava acabando, minha amiga me levou para a boate onde trabalhava, mas não me deixaram entrar porque eu não era negra. Resolvi ir para a zona do mangue. Disseram que era horrível, cheio de marginal... Eu vinha da boca do lixo, aquilo pra mim não era nada. Cheguei em 1982 e fiquei até 1989.

ffwMAG! – Existe um perfil clássico de cliente?
GL – Os caras sempre acham que vão salvar aquelas mulheres.

ffwMAG! – O homem quando procura uma prostituta quer o quê?
GL – Alguns têm lá suas fantasias. Outros acham que é mais tranquilo, porque amante sempre dá dor de cabeça. Tem muito cliente que só vai na zona pra conversar. Às vezes, ele tem problemas de relacionamento com a mulher e se sente seguro de conversar com as prostitutas, porque lá pode se despir e não ser machão. Algumas prostitutas não têm paciência de conversar, essas são as que têm menos clientes.

ffwMAG! – Acidente de trabalho, para uma prostituta, é ter um orgasmo. Acontece muito?
GL – Você não é dona do seu orgasmo. Às vezes, é inevitável.

ffwMAG! – Isso causa algum tipo de expectativa?
GL – Nenhuma. É raro uma prostituta querer namorar um cliente. Nunca dá certo. Na primeira briga, começa: “Você tem que me agradecer, eu te tirei de lá...”.

ffwMAG! – Por que prostitutas precisam de cafetão ou cafetina?
GL – Os donos de casas de prostituição deviam ser chamados de empresários. A gente quer regulamentar a vida desses caras para que passem a ter deveres para com as prostitutas. Do jeito que está, botam as mulheres até para limpar o chão.

ffwMAG! – Ainda existem gigolôs?
GL – Está fora de moda. Os ventos da liberação da mulher chegaram à prostituição e esses caras quase não existem mais.

ffwMAG! – Como conseguiu criar a ONG Davida?
GL – Logo que cheguei à Vila Mimosa, fui com três colegas ao 1º Encontro de Mulheres de Favela e Periferia, organizado pela Benedita da Silva. Perguntaram se a gente queria falar, eu quis, e foi aquele rebu: uma prostituta que fala! Nesse dia, dei uma entrevista para a IstoÉ e começou uma história. Iam na zona me procurar para falar na universidade. Nessa onda, conheci o Rubem César Fernandes, que perguntou se eu tinha interesse em sistematizar meu trabalho. Continuei minha vida na zona e, duas vezes por semana, ia ao Iser [Instituto de Estudos da Religião].

ffwMAG! – Você conheceu seu atual marido no Iser?
GL – Até 1988, prostitutas só apareciam nas páginas policiais. Como tinha conseguido um financiamento, convidei o Flávio Lenz para fazer o jornal Beijo da Rua. Nós ficamos muito amigos e acabamos juntos.

ffwMAG! – Vocês têm filhos?
GL – O Rafael, filho dele, foi viver com a gente aos 5 anos e hoje tem 24. É meu grande amigo. Tenho também uma filha em São Paulo e sou avó.

ffwMAG! – Você e o Flávio formaram a Davida juntos?
GL – Em 1990, na festa de Natal, as mulheres do Iser distribuíram uma carta dizendo que eu ia tirar o marido de todo mundo, porque já tinha tirado o Flávio da Regina. Ele, que tinha se separado havia dois anos, quando leu, ficou doente. Resolvi ir embora. O administrativo me ofereceu uma sala em outro lugar, recusei. Ele disse que eu tinha direito de pedir demissão. Não pedi porque os documentos, a mobília, o jornal Beijo da Rua existiam com o dinheiro do meu projeto e iam comigo. O Flávio também saiu. Passamos um ano na justiça, pegamos tudo o que tínhamos direito e começamos a Davida em 1992.

ffwMAG! – Você parou de trabalhar como prostituta quando foi viver com o Flávio?
GL – Já tinha parado antes. Foi muito difícil. Nunca tinha engordado e fiquei imensa. Andava com uma sacolinha de mão, na casa dos amigos, porque não tinha mais casa. Brigava com todo mundo nos botequins, ninguém me aguentava. Demorei seis meses para entender que tinha saído da zona.

ffwMAG! – O que a Davida já conseguiu?
GL – O mais importante é um direito subjetivo: até a Davida existir, todo mundo falava o que era melhor para a gente, mas nós nunca opinávamos. Hoje, é impensável alguém falar de prostituição sem nos chamar. Temos 32 associações no Brasil. Entramos na classificação brasileira de ocupações do Ministério do Trabalho. Estamos fazendo um levantamento da violação dos direitos humanos das prostitutas. Fizemos um piloto no Rio para apresentar para a OEA e conseguimos, com o Fundo das Populações da ONU, US$ 10 mil para fazer mais duas capitais. Agora vou a Bangcoc para uma reunião a respeito de financiamentos de projetos para prostitutas. Estamos interagindo por aí.

ffwMAG! – O que ainda luta para conseguir?
GL – Que as pessoas venham a entender a prostituição como um direito sexual.

ffwMAG! – De onde surgiu a ideia de criar a Daspu?
GL – Sempre pensei que tínhamos que ter um projeto sustentável, porque é difícil conseguir financiamento para as nossas histórias. Tenho uma colega na praça Tiradentes, a Imperalina, que costura há anos. Em 2005, ela me propôs criar uma confecção. Confecção é coisa de pobre, vamos criar uma grife!

ffwMAG! – Como vocês ganharam popularidade tão rápido?
GL – O nome da Daslu estava em todos os jornais, porque a Eliana Tranchesi tinha acabado de ser presa. Nosso projeto era organizar o negócio e depois apresentar para a imprensa. Só que a gente tem mania de fazer reunião no botequim. Um jornalista ouviu, e surgiu uma notinha na coluna do Elio Gaspari. Logo o jornal O Dia nos procurou, e comecei a inventar histórias: “Sim, temos uma coleção...”.

ffwMAG! – Como a Daslu recebeu a Daspu?
GL – Um oficial de justiça apareceu com uma notificação extrajudicial da Daslu, dizendo que tínhamos dez dias para deixar de usar o nosso nome. Entregamos para o Joaquim Ferreira dos Santos, que deu na coluna dele. Ganhamos 8 minutos no Fantástico. Quanto mais eles insistiam, mais sucesso a gente fazia. Até que desistiram.

ffwMAG! – Para onde é revertido o dinheiro da Daspu?
GL – Para os projetos da ONG Davida. Nossa intenção é financiar ações em outros Estados, porque as meninas botam seu próprio dinheiro para que as associações funcionem.

ffwMAG! – O que você acha do termo garota de programa?
GL – Detesto tudo o que diz respeito ao politicamente correto, principalmente a linguagem. Brigo com as colegas da América Latina, porque preferem a terminologia “trabajadoras sexuais”. Somos profissionais do sexo, mas, acima de tudo, somos putas. Quando você esconde esse nome, ainda tem um estigma dentro de si com relação à sua história. Se a gente não faz com que o termo puta vire um nome bonito, os nossos filhos vão continuar sendo o maior palavrão de qualquer sociedade.

ffwMAG! – Por que o Brasil é um destino clássico de turismo sexual?
GL – A brasileira é muito bonita. Somos conhecidas no mundo como boas, gostosas, charmosas, mas as mulheres babacas acham isso uma merda. A outra questão é que, quando chega o verão, todo mundo ganha dinheiro com turismo. Por que as putas não podem?

ffwMAG! – É complicado convencer o parceiro a usar camisinha. Como as prostitutas conseguem?
GL – Trabalhamos sistematicamente com prevenção de Aids desde 1989. Junto com o Ministério da Saúde, temos um programa que é modelo para o mundo. Foram feitas pesquisas, pela Fiocruz, com prostitutas no Brasil inteiro, e o uso do preservativo é altíssimo. Em Belo Horizonte, o índice com clientes é de 98%. Agora, quando você pergunta para as prostitutas: e com o seu namorado, você usa? Baixa drasticamente para 20%, o mesmo índice de qualquer mulher. A maior vulnerabilidade da mulher é o amor.

ffwMAG! – Em relação ao álcool e às drogas, existe algum programa?
GL – Somos boêmias. Não gosto da nova geração de prostitutas, porque elas estão sempre pensando na casa no fim do mundo que vão construir. Você convida para tomar uma cerveja e elas pensam: quantos tijolos vou deixar de comprar? A minha geração dava mais atenção ao vestido, ao perfume, ao restaurante, ao vinho, mesmo que trabalhasse na baixa prostituição. Perdeu o glamour!

ffwMAG! – Quanto tempo dura essa profissão e o que a pessoa faz quando se aposenta?
GL – Tenho uma amiga de 61 anos que tem clientes há 30, 40 anos, quase maridos. Se você fez uma freguesia, trabalha menos, mas continua na vida. Varia de mulher para mulher. Algumas são como jogador de futebol: param aos 40 anos.

ffwMAG! – As prostitutas trabalham por prazer?
GL – Às vezes não, mas qualquer trabalho é assim.

ffwMAG! – O que tem de alegre nessa profissão?
GL – Quando cheguei ao Estácio, uma zona tão grande que parece cidade do interior, pensei: “Isso aqui é uma festa!”. Você conhece muita gente, muito homem, e tem liberdade. Isso, é claro, desde que queira ser livre. Porque liberdade é uma questão interior. 

Entrevista pulicada originalmente na revista ffwMAG! 16

Nenhum comentário:

Postar um comentário