sexta-feira, 15 de abril de 2011

A chantagem de R.

Chantagem

Atendi ao telefone. Era R.

Me pediu R$ 50. Precisava de grana para comprar cocaína. Eu menti. Falei que não tinha. Ele não acreditou. Pediu de novo. Eu neguei de novo. Não tenho nada contra quem usa droga, mas não achei meu dinheiro no lixo para financiar o vício de quem quer que seja.

R. começou a ficar irritado. Subiu o tom da voz. Mantive a calma. Deixei-o esbravejar à vontade. R. foi mais que um amigo, foi meu primeiro relacionamento homossexual. Na época, R. era o único que sabia que eu era gay – e usou isso para me chantagear.

     - Se você não me der o dinheiro, eu conto pra sua família que você é viado!

Eu sabia que não estava preparado para assumir minha homossexualidade, principalmente para os meus pais. Era cedo demais. Ainda necessitava de tempo para refletir, para me aceitar, para entender o que é “ser gay”.

     - Você ouviu? Eu conto tudo...

Fiquei em silêncio por alguns segundos. A repentina ameaça de R. havia me desestabilizado. Estômago queimando, mãos suadas, coração acelerado, respirei fundo e, num acesso de fúria, descontrolei. Desafiei R. a contar para todo mundo quem eu era. Foda-se! Jamais aceitaria ser chantageado.

R. baixou a bola, a voz, a “macheza”. Pediu desculpas e, arrependido, falou que não contaria nada para ninguém. Mas aí já era tarde. Desliguei o telefone com a certeza de que nunca mais o encontraria novamente.

Acho que foi esse episódio que me ensinou a não ceder de jeito nenhum à pressão dos canalhas e dos homofóbicos.

2 comentários:

  1. Isso aí! Muito bom!
    Adorei a forma como escreveu o texto.

    Beijos, Marcos, fique bem!
    =*

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