segunda-feira, 11 de abril de 2011

A ilusão da blindagem

Luis David Castiel. Folhapress/Paula Giolito

Em entrevista para a “Folha”, o médico epidemiologista Luis David Castiel fala sobre os perigos de hipervalorizar o risco. Para ele, há uma visão quase catastrófica da saúde, que torna as pessoas reféns de prescrições, exames e hábitos impostos e restritivos.

Veja alguns trechos da entrevista:

O CONCEITO DE RISCO
→ Vi uma propaganda de uma companhia de seguros que dizia: "Vai que...". Quer dizer, vai que acontece, então você não pode relaxar, tem que ficar atento. Isso aumenta a ansiedade em relação ao risco, que gera o impulso para fazer algo, ter ou consumir algo que possa controlá-lo.

RISCOFOBIA
→ Tem um lado opressivo que me incomoda. Uma dimensão moralista, que rotula as pessoas que se expõem ao risco como displicentes e que, portanto, merecem ser punidas [pela doença], se acontecer o evento ao qual estão se expondo. Estamos à mercê dessa prescrição constante que a gente tem que seguir. Na hora em que você traz para perto a ameaça, tem que fazer uma gestão cotidiana dela. Não há como, você teria que controlar todos os riscos possíveis e os impossíveis de se imaginar. É a riscofobia.

VIDA SAUDÁVEL
→ Parte da ideia de que você tem que estar atento para todos os perigos e segurar a onda, ou segurar "a franga", porque a proposta é uma vida contida em um contexto de muitas ofertas de risco. Você tem simultaneamente ofertas de prazeres gastronômicos e o discurso de contenção da alimentação saudável.

DISTÚRBIOS ALIMENTARES
→ O distúrbio alimentar é um jogo entre ansiedade e controle. O jogo se manifesta em todas as esferas da vida. No Rio, onde eu moro, há a ansiedade da segurança. Esse episódio na escola de Realengo vai hipervalorizar isso, as pessoas vão querer o controle, cercar as escolas, não sei. É a ilusão da blindagem, mas você não pode blindar o seu corpo.

DISCURSO DE GUERRA
→ Temos uma nova guerra, como a que foi criada pelo [ex presidente dos EUA] Bush, que é a guerra preventiva. Você não tem elementos claros sobre o perigo real, mas, na dúvida, faz uma intervenção. Na saúde, a vigilância constante, o excesso de exames criou uma nova categoria: a pessoa não está doente, mas não é saudável. Está sob risco. 

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