segunda-feira, 4 de abril de 2011

O efeito zumbi

 Eu: escondido na contra-luz

( Fui entrevistado pela repórter Mariana Versolato, da "Folha". Leia, abaixo, a reportagem na íntegra, sobre os efeitos dos antidepressivos )  

O EFEITO ZUMBI
Por Mariana Versolato | Folha de S.Paulo

"Sabe quando você está numa ressaca brava? Era pior. Saía da cama e sentia uma coisa paranormal, como se não fosse eu. Era outra pessoa me controlando e eu assistindo à cena, sem controle. O remédio fazia eu me sentir assim, um zumbi."

A sensação que o assistente técnico Ricardo Rodrigues dos Santos, 23, tinha o dia todo, por quase um mês, era efeito de um antidepressivo.

"Causava o resultado oposto ao que eu esperava. Me derrubou", conta.

O remédio era para tratar a depressão grave que, segundo conta, desenvolveu trabalhando em telemarketing.

"Ouvia clientes me xingando sem parar, como se eu fosse responsável pelos problemas. E ainda tinha a cobrança da chefia. Aquilo me fazia mal. Até que tentei pular do prédio e me levaram para um hospital."

Quando começou a se ver prostrado por causa da medicação, se sentiu "obrigado" a parar. "Depois de três semanas, nem esperei a consulta com a psiquiatra e parei."

Passou a trocar de remédios e, com a médica, pesava benefícios e prejuízos de cada um. Ricardo sabe de cor a lista: "Em um ano, experimentei Fluoxetina, Rivotril, Risperidona, Sertralina, Paroxetina e Citalopram."

Em dezembro de 2010, interrompeu o tratamento porque perdeu o convênio médico ao pedir demissão, mas diz que hoje está melhor.

"IDIOTA FELIZ"

Muitos usuários descrevem as consequências dos remédios psiquiátricos como "efeito zumbi". Reportagem do jornal inglês "Guardian" deste mês mostra o caso de uma paciente que se disse "zumbificada" pelas drogas.

Quando começou a tomar medicamentos contra a depressão, em setembro de 2010, o jornalista Marcos Guinoza, 44, criou o blog "O Idiota Feliz!". E lá contou de seu medo de "embarcar na viagem à terra dos zumbis felizes e nunca mais voltar de lá".

No começo, conta, se sentia aéreo na maior parte do dia. "É como sentir seu corpo mais leve, numa suave levitação, com a sensação de que você pode cair a qualquer momento."

Mas, segundo a psiquiatra Doris Moreno, do grupo de doenças afetivas do Instituto de Psiquiatria da USP, o termo certo para essa sensação é torpor ou modorra - apatia, sonolência, insensibilidade, prostração mórbida.

O psiquiatra Luis Altenfelder Silva Filho, que acaba de lançar o livro "Doença Mental, um Tratamento Possível" (Ágora, 304 págs.,R$ 71,90), concorda que as medicações que afetam o sistema nervoso podem causar tais efeitos, e critica a presença excessiva de medicamentos na relação paciente-psiquiatra.

"O número de prescrições só aumenta e, consequentemente, seus efeitos colaterais também, sem que as causas sejam tratadas."

O motivo, acredita, é a influência da psiquiatria biológica norte-americana, que faz a consulta girar só em torno da receita médica. "Tem que se discutir a receita, mas também os efeitos dos remédios e os aspectos emocionais, sociais e profissionais da vida da pessoa."

Altenfelder defende ainda a prática da psicoterapia de grupo integrada ao tratamento medicamentoso, para que a pessoa preste atenção àquilo que pode mudar.

EFEITOS PERMANENTES

Ricardo diz que, quando começou a tomar antidepressivos, teve medo dos efeitos. "A gente sabe que existem reações indesejadas, mas nunca tinha sentido na pele. Tinha receio de que fossem permanentes."

Esse temor é comum, segundo Altenfelder. "Muitas pessoas têm medo de perder o controle, sem volta." Por isso, afirma que é importante haver uma boa relação com o médico, que deve dar todas as informações sobre os efeitos esperados.

"Se o médico faz uma consulta apressada, a pessoa já pensa: "Ele nem me olhou, não prestou atenção à minha queixa. Não vou tomar mais esse remédio que, ainda por cima, me faz mal."

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PROBLEMAS PODEM SINALIZAR ERRO NO DIAGNÓSTICO

É comum que antidepressivos causem sonolência ou sedação, mas é preciso avaliar como é o"efeito zumbi" em cada um, de acordo com André Férrer Carvalho, professor de psiquiatria da Universidade Federal do Ceará.

"As reações variam de pessoa para pessoa e, muitas vezes, são temporárias."

A psiquiatra Doris Moreno lembra que existe um período de latência de 15 dias para que o remédio faça efeito.

Ela diz ainda que nem todo mundo tolera certos antidepressivos ou responde bem ao tratamento. Achar o melhor remédio para cada um depende, portanto, de "tentativa e erro", segundo Carvalho.

Para Moreno, o agravamento dos sintomas com a medicação ocorre mais quando se trata de depressão bipolar tratada, erroneamente, com antidepressivo. "Quem se sente como 'zumbi' por muito tempo não foi diagnosticado corretamente ou toma remédios que não são adequados."

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Texto publicado originalmente na "Folha de S.Paulo", domingo, 3 de abril de 2011. 

4 comentários:

  1. Ótimo Marcos! Gostei do seu blog e do seu propósito.
    Sou psicanalista e sinto esse excesso de drogas na relação médico-paciente.
    Se puder visite meu blog (www.sinapseoculta.wordpress.com)
    Obrigado

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  2. Que bacana, Marcos!

    Gostei da reportagem! :D Esse assunto é sempre bem vindo!

    Beijão!

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  3. Marcos.

    Antes de ler seus textos sobre depressão eu tinha um " outro olhar " sobre o assunto... mais distante. Talvez um medo do que poderia descobrir e o quanto me era tudo isso assustador
    Minhas leituras se reduziam aos aspectos conceituais, teóricos da depressão.
    Ando lendo seus textos e entendendo - mais de perto - como tudo isso se dá.
    (não anônima... patética )

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  4. Eu acabei de mandar um e-mail para minha psquiatra que receitou Oxalato de Escitalopram, a 2a tentativa de ansiolítico após o Cymbalta - a nova droga "tchan" do momento ter me dado sono demasiado a ponto de passar um dia inteiro dormindo. Nunca me senti tão mal na vida com o esse tal de oxalato! Para "curar" uma ansiedade eu tomo um remédio que deixa com a sensação descrita na reportagem: pior do que uma ressaca! Não me reconheço! Putz, será que vale a pena mesmo? Aprender a esperar, a respirar, a se concentrar parece algo difícil para mim, um exercício que envolve esforço, maturidade, estratégia e paradoxalmente.. espera. Talvez esse processo mais árduo e lento valha mais a pena que sentir meu cérebro derreter. Bom, isso é apenas um auto-exame.

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