quarta-feira, 18 de maio de 2011

Assim caminha a humanidade conectada

Quebra-cabeça

DE UNS ANOS PRA CÁ, só consigo ouvir um disco novo inteiro, no máximo, duas vezes. De qualquer artista. Até dos artistas que eu gosto. Acho exaustivo. Logo me desconcentro. Logo me vêm à cabeça outras canções, de outras bandas, de outros estilos.

Lembro que lá trás, quando o Morrissey ainda me atormentava com “I Know Its Over”, eu ouvia os discos de ponta a ponta, lado A e lado B, dezenas de vezes. Cada novo trabalho dos artistas que eu curtia era um acontecimento. Eu me fechava no quarto para contemplar a capa, o encarte, enquanto desvendava cada canção como se fosse um segredo bem guardado. O disco permanecia rodando por meses no meu aparelho de som (sim, aparelho de som, sou pessoa do século XX).

Ok, esse tempo faz tempo. E nem quero voltar no tempo.

Hoje, não ouço discos. Ouço canções. E não importa de qual artista, desde que a canção seja boa. Com isso, meu gosto musical se tornou mais elástico. Onde cabia apenas rock, agora até a Britney tem permissão para entrar caso cante algo que me agrade.

Piorei? Endoidei? Pode ser. Mas acho que esse meu novo jeito de ouvir música tem a ver com esse novo jeitão do mundo. É tanta coisa acontecendo, tanta “novidade” pra ver, ouvir, ler, tatear, saborear, conhecer, aprender, que não consigo mais me concentrar em uma coisa só por mais que algumas horas... minutos... segundos...

Tenho pressa. E a minha pressa é movida por um querer destrambelhado. Quero “estar por dentro” de tudo, saber das coisas. Mesmo que, lá no fundo, eu saiba que não sei de porra nenhuma.

Antes, eu procurava ver o todo. Agora, só me interessa algumas partes do todo. Resultado: meu “conhecimento” passou a ser fragmentado, superficial, ligeiro, sempre com peças faltando no quebra-cabeça.

O novo disco da Lady Gaga, “Born This Way”, vazou na internet. Baixei e ouvi o disco inteiro. Pronto. Já posso virar essa página e seguir em frente. 

Assim caminha a humanidade conectada (e ansiosa): sem apego a coisa alguma e na velocidade de um jato.

2 comentários:

  1. Detesto isso. Gosto de ouvir álbuns inteiros várias vezes e não estou nem aí para as novidades. Neste aspecto, continuo no século XX, e feliz.

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