sexta-feira, 27 de maio de 2011

Coisas do mundo, minha nega

Por Eduardo Logullo*

Banksy

Podemos considerar um futuro diferente? A modernidade nos deixou com poucas ilusões. O século XX ainda se arrasta com seus valores ultrapassados e espalhará por mais alguns anos a tensão/pressão das sociedades pós-modernas. O vazio de perspectivas provocará a chegada de alternativas? A ideia de progresso trouxe competição, hiperconsumismo e destruição dos ambientes naturais. Seremos nós que mudaremos isso? 

Os séculos nunca começam antes das duas primeiras décadas. O desaparecimento dos atuais personagens que mandam no planeta trará sistemas ideais, melhor qualidade de vida e as tão necessárias mudanças? Nenhuma vanguarda mais propõe a senha da libertação. Chegamos ao ponto de exigir uma mudança radical na história da humanidade?

Olhar para trás: desvios ou avanços. O tempo cíclico repete os modelos da ficção científica? A sociedade da informação sonha com futuros imaginários. Problemas antigos resolvidos são a revelação de um novo mundo? Parte do planeta acredita em futurismos, parte do planeta é negativista, parte do planeta crê em soluções, parte do planeta é devorada. É importante exercitar confiança e curiosidade na forma de olhar o futuro?

Vamos nos apropriar daquilo que se transforma. Vamos romper com esta sociedade que não mais renascerá. É preciso enxergar, por detrás das resistências e dos impasses, os contornos de uma nova sociedade. Ousar e desejar. A utopia industrialista não libertou a humanidade da injustiça. De utopias, nada resta. A transformação que está em curso vai trazer emancipações. Essa crise indica a necessidade de reflexão. Mudar concepções. Mudar a linguagem. Mudar de canal. Mudar. 

Até quando os homens ainda vão usar gravatas? Até quando as mulheres vão se casar de vestido branco, véu e grinalda? Até quando as pessoas vão defender energias poluentes? Até quando dogmas religiosos vão impedir pesquisas científicas? Até quando um norte-americano consumirá 570 litros de água por dia? Até quando 1 bilhão e 100 mil pessoas no mundo vão continuar sem água potável? Até quando o MacMundo será o oposto do fundamentalismo religioso? Até quando o tribal será antagônico ao urbano? Até quando os ódios étnicos vão dividir o mundo em fragmentos geográficos cada vez mais isolados? Até quando serão fabricados 50 milhões de carros por ano? Até quando estacionamentos de carros serão mais importantes do que parques públicos? Até quando viadutos e autopistas vão aniquilar as cidades? Até quando poços de petróleo vão vazar e provocar desastres ambientais irreparáveis? Até quando a China fabricará guarda-chuvas descartáveis? Até quando as indústrias de alimentação vão considerar os animais como máquinas? Até quando Shanghai restringirá o uso da bicicleta como meio de transporte e incentivará o uso do automóvel? Até quando cavalos ainda vão puxar carroças? Até quando existirá a imagem de Papai Noel? Até quando existirão galãs de novelas?

Amanhã. De que amanhã se trata? Há futuro na escrita? Letras ou numerais vão dominar a linguagem daqui a 80 anos? Haverá códigos auditivos ou visuais? Amanhã. Por que muitos ainda reagem contra a internet? Por que gerontocratas (que mal sabem digitar) são os que implantam dispositivos de dominação e restrição na rede mundial? Bilhões de pessoas estranhas entre si estão conectadas à rede. Os tempos futuros vão ampliar por mil o mundo de interatividade digital. Os jornais impressos já significam um bando de árvores derrubadas. A expansão tecnológica à nossa volta dificulta saber o que é novidade e o que é diferente. A tecnologia interativa já é um fenômeno natural para a nova geração. Um terço da população mundial tem menos de 15 anos. Os pré-teens de 2010 vão mudar tudo em 2030? O futuro pertence a quem brota hoje. Brotos. Amanhãs. 

Bzzzz. Estamos no meio de uma revolução que não tem a ver apenas com tecnologia: as pessoas mudam suas maneiras de descobrir, dividir e consumir informação. Escalas globais, cidades globais, pessoas globais. Novas redes baseadas na escala humana: cada usuário é o link do outro usuário. Bilhões de links formarão em 2020 o que se chama Big Audience Network. Novos padrões de comportamento sempre crescem a pontos críticos e são sucedidos por alterações da situação crítica. A comunicação digital se tornou algo inteiramente natural. Daqui pra frente, tudo vai ser diferente? A forma tradicional de lucrar com conteúdos muda de vez? Yap, a nova geração entende isso intuitivamente. As mídias tradicionais encolhem ano a ano. Despenca dramaticamente a venda de CDs. Cai a audiência da TV. O comércio de DVDs estagnou no Ocidente e no Oriente. Estações de rádio tocam cada vez menos músicas. Bzzzz. A pirataria aumenta. Hey, os consumidores destronam os magnatas da mídia e da indústria de entretenimento. Afinal, para que comprar um CD ou um DVD quando você pode baixar a faixa ou o filme que deseja? Bzzz. 

As cidades se tornam mais parecidas em configurações urbanas e serviços. As cidades planejadas deixam de encantar: fazem parte de um passado de expectativas malsucedidas. Nos Emirados Árabes, surgirá (em 2016) Masdar City: suas diretrizes de sustentabilidade darão certo? Na China, surgirá em 2040 a cidade de Dongtan, com o rótulo de “ecópole”. Brasília, meio século depois de sua inauguração, é considerada, pelo antropólogo James Holston, uma utopia modernista “feita de concreto e cimento armado, minada em suas próprias contradições internas”. Cidades planejadas: simulacros de futuros que jamais acontecerão. Ficções geográficas. O novo mundo pede (e busca) mudanças duradoras, que escapem das extravagâncias do sistema financeiro, da ganância empresarial e do adiamento de responsabilidades sociais. O novo mundo quer soluções criativas, que valorizem aspectos coletivos. Precisamos matar a era do ego e do consumo sem limites, para construir o essencial. Viver a mobilidade da era digital. Precisamos de senso coletivo na nova ordem mundial. Sem controles hegemônicos. Encontrar a reconciliação definitiva com o meio ambiente. O virtual se tornará tangível? O design e a arquitetura das próximas décadas terão menos estilo, menos ornamentos e mais utilitarismo? Espaçosos conjuntos habitacionais vão propor em 2040 o urbano-rural: moradias flexíveis e abundância de áreas verdes. Em 2050, 75% da população mundial viverá em cidades. 

E por enquanto? Por enquanto, Tuvalu, Ilhas Marshall, Maldivas e Bangladesh são países pobres ameaçados pelo volume dos oceanos que sobe com o degelo das calotas polares. Por enquanto, navios de pesca chineses pescam 2 mil tubarões por dia para aproveitar apenas as suas barbatanas. Por enquanto, os pitus desaparecem no assoreamento do rio São Francisco. Por enquanto, os esturjões (peixes com 250 milhões de anos) entram em extinção definitiva, graças à exploração de toneladas de suas ovas – chamadas de caviar. Por enquanto, a Cidade do México continua a ostentar o índice de atmosfera mais poluída do mundo. Por enquanto, a Toshiba fatura mais do que a economia do Uruguai, da Islândia e da Grécia somadas. 

Bzzzz. Por enquanto, Amsterdam implementa programas que até 2015 vão transformar a bicicleta no meio de locomoção usado por 90% da população. Por enquanto, Nova York observa um declínio de 18% no uso de automóveis nas ruas. Por enquanto, um terço dos moradores de Berlim usa bicicletas para se locomover. Bzzzz. Por enquanto, não existe um assassinato no Japão desde 2003. Por enquanto, nenhuma morte por overdose ocorre há cinco anos na Holanda, desde que se legalizou a tolerância a usuários de drogas. Bzzz. Por enquanto, Londres vai implantar 140 novos parques públicos até 2020. Tantos amanhãs. Novas políticas. Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existirá um homem feliz. 

As coisas estão no mundo: só que eu preciso aprender. O esplendor geométrico. A síntese. Sons, rumores, odores. A coragem, a audácia, a rebeldia. Os circuitos das órbitas próprias. O hábito da energia. Olhai para nós! Ainda não estamos exaustos! Os nossos corações não sentem nenhuma fadiga, porque estamos nutridos de fogo e de velocidade! Estais admirado? Estamos eretos sobre o pináculo do mundo. Mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas! Vamos executar nossos planos na flauta de nossas próprias vértebras! Cada vez se ama menos? Cada vez se ousa menos? Um sol se ergue sobre o futuro. Eu já estarei podre e morto? Coisas do mundo, minha nega.

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Escrito com o auxílio luxuoso de Marinetti, Vilém Flusser, Mike Walsh, Ezra Pound, Elisabeth Roudinesco, Jacques Derrida, Michael Larson, Slavoj Zizek, Benjamin R. Barber, André Gorz, Richard Barbrook, Maiakovski, Flash Gordon, Augusto de Campos e Paulinho da Viola.

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* Eduardo Logullo é jornalista e maluco.

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!

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