sexta-feira, 6 de maio de 2011

Em que momento a gente virou pedra?

Tá dureza, viu!

O Capitão Nascimento é “durão”.
A barriga e a bunda têm que estar “durinhas”.
O pau deve se apresentar sempre “duro” na hora H.

Acredite: “duro” é o adjetivo que melhor define o mundo atual, quando seres & coisas precisam ser/parecer sólidos, consistentes, enérgicos, fortes, rigorosos, eretos.

Nesse mundo de “músculos rijos e bem torneados”, não há mais espaço para os “moles” – gente flácida, indolente, vagarosa, sensível, acanhada, frouxa, sem expressão. Ou você mostra que é capaz de “matar o inimigo” ou vai parar na vala comum dos “fracos”.

Obama, ao eliminar Osama, provou que é “durão”: “Yes, we can... kill”.

A vida é “dura”.
Só vence quem “dá duro”.
Para sobreviver, é preciso ser “duro na queda”.

Na academia de ginástica, antro dos “saudáveis”, todos suam de língua de fora para ficarem “duros”: a maricona passivona, a dona de casa traída, a grã-fina botox, o cinquentão barrigudo, a menina mal-amada, a velha gagá, a executiva solitária, o rapagão cérebro de goiaba, o divorciado meia-bomba...

Mas deixar o abdômen durinho e lipoaspirar as gorduras extras não são suficientes para demarcar território e evitar o “vexame” de ser cumprimentado pelo porteiro do prédio com um singelo “bom dia”. É necessário também empedrar o coração, embrutecer a alma, fazer “cara de tédio”, demonstrar indiferença a tudo e a todos.

Ser “durão” é ser turrão, nunca dar o braço a torcer, “trollar” Deus, o diabo e a própria mãe para parecer “descoladinho”, “moderninho”, “tô nem aí para o que os outros pensam de mim”.

É uma pena.

Sim, “endurecer” é preciso. Até para nos proteger dos brutos. Mas em que momento a gente deixou de acreditar na gentileza, na delicadeza, na educação para “virar” pedra? Que fim levou a elegância? Quem disse que basta anabolizar o corpo e envenenar o humor para sermos felizes?

Contra o endurecimento, seja flexível.

8 comentários:

  1. Eu sou contra as regras. Acho que tem que ter gente dura, gente flexível, gente mole. Eu particularmente tenho horror de gente predominantemente fraca, pois elas sempre acham que a culpa de suas fraquezas e do mundo e da sociedade, quando na verdade é sempre delas mesmas.

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  2. E existe uma diferença muito grande entre FINGIR que não está nem ai para o que os outros pensam e DE FATO não estar aí para o que os outros pensam -- o que, para mim, é o ideal.

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  3. Johann:
    1) Entenda a frase: Ou você mostra que é capaz de “matar o inimigo” ou vai parar na vala comum dos “fracos”. Aqui, não se trata de ser "fraco". Mas será que vale tudo para NÃO parecer "fraco"?
    2) Quando falo do "tô nem aí para o que os outros pensam de mim", falo daqueles que assumem atitude blasé diante do mundo para "flutuar" acima dos outros.
    3) Basicamente, o texto fala sobre o "endurecimento", o "embrutecimento" das pessoas.
    Abs.

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  4. Hahaha vc sabe como as palavras são ambíguas! Mas o fato é que às vezes sinto em seu texto uma simpatia especial pelos "fracos" e uma irritação especial para com os "fortes". Ambos entendemos que NINGUÉM é fraco ou forte o tempo todo, daí as aspas. Mas eu confesso que tenho muito mais simpatia pelos que se mostram "fortes" do que pelos que se mostram "fracos". As piores pessoas que conheci na minha vida foram aquelas que se prostravam e choramingavam quando confrontadas pelas durezas da vida; elas sempre achavam um jeito de se eximir de responsabilidade pelos próprios fracassos, ao mesmo tempo em que culpavam Deus, Zeus, Xangô, a phamilia, o governo, a sociedade etc. Por outro lado, as melhores pessoas que conheci são aquelas que passaram barras pesadíssimas e buscaram forças dentro de si mesmas para superar os próprios problemas. Quanto aos bobos que se fazem de blasés para "flutuar" sobre os outros, são apenas isso: bobos. Mas eu prefiro um bobo pairando sobre mim (até porque o ignorarei) do que um coitadinho choramingando e apontando o dedo para tudo e todos enquanto se faz de vítima.
    Nem preciso dizer que se leio seu blog há tanto tempo, e comentando tantas vezes, é porque eu gosto dele (e de vc, apesar de não te conhecer pessoalmente).
    Obviamente, isso não tem nada a ver com concordar contigo e vc comigo. Concordar é para os fracos. Ooops! Com ou sem trocadilho? Agora nem sei!
    Abração!

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  5. Hahaha... É que sou da turma do Auberon Waugh: "Ser independente de partidos ou partidários; e abusar sempre dos mais fortes, nunca dos mais fracos."
    Abs.

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  6. Mas como ser independente de partidos e partidários e ao mesmo tempo tomar partido dos mais fracos? Afinal, abusar SEMPRE dos mais fortes e nunca dos mais fracos é mostrar preferência pelos mais fracos, e tomar partido, cerrar fileiras com eles. AÍ é que está! Rsrsrsrsrs
    Abs

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  7. Gostei do debate aí. Eu sempre achei que, ficando na minha, sendo o mais integro e honesto possível, conseguiria espaço no mundo. A duras penas, confesso que me enganei. Daí sentir desprezo e pena, em doses alternadas, por quem usa da condição de vítima, talvez sem perceber, para se posicionar diante da vida. Tudo bem, cada um sabe de si e não vamos deixar as regras dominarem nosso imaginário... mas que é dura e bela essa vida, ah, isso é. Abraços gerais.

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  8. Uau! Sem palavras para o post. Disse tudo!

    Ah, se as pessoas fossem mais sensíveis, acho que eu não estaria nessa "dureza"... mas vamos lá, ainda existem aqueles que valem a pena :)

    Beijos!

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