domingo, 15 de maio de 2011

Uganda

David Bahati

UGANDA foi colônia britânica até 9 de outubro de 1962, quando conquistou a sua independência. Livre, o país enfrentou diversos conflitos internos até Yoweri Museveni, em 1985, aplicar um golpe em Milton Obote e assumir o poder. Em fevereiro de 2010, Museveni foi reeleito presidente pela quarta vez. Vai comandar o país por mais cinco anos.

A capital de Uganda é Kampala. O país tem 30 milhões de habitantes e está situado no centro-leste da África, na região dos grandes lagos africanos. A agricultura é o principal setor da economia: emprega 80% da força nacional de trabalho. Dados de 2001 indicam que mais de 35% da população vive abaixo da linha de pobreza.

Uganda é país de maioria cristã: 84% da população, dividida entre católicos e anglicanos. Islâmicos somam 12%. E apenas 1% dos ugandenses segue as religiões africanas.

Numa descrição bem superficial e ligeira, Uganda é isso aí.

Ok – “mas e daí?” – pergunta o(a) leitor(a) desavisado(a). E daí que Uganda esteve no noticiário nos últimos dias e não custa nada saber um pouquinho mais sobre o país antes de seguir em frente e falar sobre o que realmente interessa: a nova lei ugandense que prevê pena de morte para homossexuais.

O autor do projeto é um deputado de 36 anos chamado David Bahati. Perto dele, Jair Bolsonaro fica parecendo um inofensivo poodle cor-de-rosa. Leia algumas declarações de Bahati:

- “Se você declarar que é gay, se fizer isso em público, deve ser retirado das ruas e ser preso, porque a homossexualidade é crime”;

- “Aqui [em Uganda], homem dormir com homem é um tabu. É pecado. É tão horrível quanto roubar”;

- “Gays têm três vezes mais chances de pegar o HIV. Por isso, combater a homossexualidade é combater a Aids”.

Atualmente, a homossexualidade já é crime em Uganda, mas só há prisão em caso de flagrante. Pela nova lei, basta alguém acusar o outro de ser gay e o acusado vai parar na cadeia. A execução acontece em casos de relações com menores de 14 anos, transmissão do vírus da Aids, incesto ou “ofensas em série”. Não sei o que significa “ofensas em série”, mas já dá pra imaginar que, se o projeto de Bahati for aprovado, os gays de Uganda, sob o risco de serem denunciados e executados, vão ter que viver na mais absoluta clandestinidade.

Uganda é país com histórico pra lá de conservador. Para combater a Aids, por exemplo, desde 1986 o governo utiliza uma política chamada de ABC: A de abstinência, para jovens solteiros; B de “be faithful” (seja fiel), para casados; e C de “condom” (camisinha), para quem não seguir as duas anteriores. Essa abordagem, polêmica e assumidamente moralista, acabou obtendo resultados positivos, reduzindo o número de infectados pelo HIV.

Essa estratégia, priorizando a abstinência sexual e a fidelidade e deixando o uso da camisinha apenas como terceira opção, surgiu em círculos cristãos dos EUA na década de 1980. Em Uganda, virou política de Estado. Vale lembrar que o país africano é infestado de pastores e reverendos norte-americanos que vão pra lá com o único objetivo de “demonizar” a homossexualidade, e botar ainda mais lenha nessa fogueira. Resultado: a intolerância aos gays em Uganda é tanta que, em 2010, um tabloide local intitulado “The Rolling Stone” chegou a publicar nomes e fotos de cem pessoas apontadas como homossexuais. Ao lado do título, a publicação incitava: “Enforque-os”.

Mas Uganda não está sozinha nessa. Quase a África inteira parece parada no tempo. Em mais de 30 países do continente, a homossexualidade é crime. No Sudão, na Mauritânia e em algumas regiões da Somália e da Nigéria, a punição para gays, como quer Uganda agora, já é a pena de morte.

Sim, o Brasil ainda não é nenhuma maravilha. Além dos inúmeros ataques que ocorrem contra LGBTs, em 2010, segundo o Grupo Gay da Bahia, 260 homossexuais foram assassinados – aumento de 31,3% em relação ao ano anterior (198 mortes). Mas o país, por meio do STF, deu um soco histórico na fuça dos homofóbicos ao aprovar a união homoafetiva. Mesmo em marcha lenta, o Brasil vai evoluindo na questão gay.

Triste é perceber que lá longe, em versão ugandense, existem “bolsonarossauros” e “malafaias” piores que os nossos. Aqui, até podemos rir da imbecilidade desses pré-históricos. Em Uganda, nem pensar. Em Uganda, não há motivo algum para rir de nada. 

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Assine petição da Avaaz contra a lei de pena de morte para gays em Uganda.

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