terça-feira, 31 de maio de 2011

Viver em plano-sequência é um porre

A Banda...

Falou-se muito em plano-sequência nos últimos dias. O motivo foi o vídeo de “Oração”, canção de uma banda de Curitiba chamada... Ah, nem vou repetir o nome para não causar aborrecimento a ninguém! Melhor seguir logo em frente para espantar o frio.

O tal vídeo, assistido milhões de vezes no YouTube, foi filmando em plano-sequência (para quem faltou ao workshop do Inácio Araújo, explico: plano-sequência é a filmagem sem cortes – ou com cortes muito bem disfarçados). Grandes cineastas como Robert Altman, Antonioni, Godard e Kubrick usaram esse truque cinematográfico em seus filmes. Alfred Hitchcok foi além: dizem que o mestre do suspense fez um filme inteiro em plano-sequência: “Festim Diabólico”, de 1948.

Mais atual, o longa argentino “O Segredo dos Seus Olhos”, de Juan José Campanella, surpreende com um plano-sequência de tirar o fôlego.

Pois bem. Falou-se tanto em plano-sequência que eu me peguei a pensar na vida. Sim, na vida! Se não me entendem, paciência. Se me acham óbvio, paciência. Mas é verdade, a mais insofismável verdade: a vida se passa em um modorrento plano-sequência – uma sucessão ininterrupta de acontecimentos tediosos que, inevitavelmente, encerra-se no cemitério. E foi de tanto pensar nisso que acabei delirando: e se pudéssemos resolver as nossas chateações em uma ilha de edição?

A vida não é breve, como acreditam os tolos. A vida é desagradavelmente longa, abarrotada de passagens inúteis, tempos mortos e personagens desimportantes. Agora, imagine se fosse possível largá-la nas mãos do montador de “Tropa de Elite”? Aposto que o Daniel Rezende daria um jeito de torná-la um pouco mais emocionante, eliminando prefácios e posfácios – e concentrando-se apenas na ação, no miolo, no essencial.

Sim, o essencial, minha gente. Só o essencial importa! O “The Best of”. O restante – e bota restante nisso! – não passa de “encheção de linguiça”. Há vidas que poderiam ser compiladas em um trailer; outras, até dariam um épico. Mas todas, sem exceção, necessitam de cortes, de uma edição que retirasse delas o imprestável.

Viver em plano-sequência é um porre. É acordar/dormir, com um ovo frito no meio, dia após dia após dia. Às vezes, o recheio até sai do trivial. E são essas vezes – só essas vezes – que dão algum sentido maior à nossa existência. 

5 comentários:

  1. Muito bom, Marcos. A melhor descrição do que é a vida, sem hipocrisias.

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  2. Belo devaneio querido Marcos...pena que constatar apenas, não muda em nada. Não tem saída !!! Prefiro muitas vezes, nem pensar, nem constatar nada, apenas me deixar estar. Bjs em seu coração.

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  3. Um botão de 'rewind' e outro de 'fast forward' já resolveriam o problema. Talvez um de 'pause'. A vida ficaria mais interessate.
    Muque de Peão

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  4. Gostei do assunto do post e das referências :)

    Que sua vida seja um filme de sucesso, Marcos!

    Beijos!

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  5. Não nos esqueçamos do plano-sequência máximo que é "Arca Russa" de Sokurov, hein! Acho que eu não me aborreceria se vivesse algo tão bonito :}

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