terça-feira, 21 de junho de 2011

Os fashion-jecas brasileiros

Modelo negra em desfile da Neon

Bastou o Jean Paul Gaultier botar a gorducha Beth Ditto em seu desfile na Semana de Moda de Paris para os fashion-jecas brasileiros soltarem um flatulento: “Ohhhhh...” – de repentina admiração. E todas passaram a amar a vocalista do The Gossip.

Bastou a Givenchy lançar campanha estrelada pela Lea T. e a “Vogue” francesa fazer um ensaio fotográfico com ela para os fashion-jecas brasileiros soltarem outro flatulento: “Ohhhhh...” – de repentina admiração. E todas passaram a amar a transex.

Não entendo de moda. Por isso, não sei se a moda brasileira é boa ou mero copy/paste do que é feito lá fora. Deixo essa avaliação para a Glória Kalil, a Erika Palomino, a Vivian Whiteman, a Lilian Pacce.

O assunto aqui é outro: a “ausência” de modelos negras nas passarelas da 31a edição da São Paulo Fashion Week.

Outra vez, a “Folha” levantou a “polêmica”. Parece que nenhuma grife seguiu as diretrizes do acordo firmado em 2009 com o Ministério Público do Estado de São Paulo, que obrigava a organização do evento a sugerir às marcas a adoção da cota de 10% de modelos negras.

Acho que ninguém deve ser obrigado a nada. Mas, repare na declaração de um tal Bruno Soares, o booker: “Os negros no Brasil, por razões históricas, são pobres e não consomem moda. Por isso, as marcas não querem associá-los a seus produtos.”

Sempre vai ter um espírito de porco que irá concordar com a besteira dita pelo booker, acrescentando que “essa é a realidade do Brasil”. Eu discordo. Para mim, ele foi apenas preconceituoso, repetindo o velho discurso dos “cuecões” do século passado. E, se for verdade que as marcas nacionais não querem associar sua imagem à imagem dos negros, então sugiro que essa tal “moda brasileira” vá catar coquinho.

Dizem por aí – e eu nunca acreditei – que a moda é setor que reúne gente ousada, transgressora, à frente do seu tempo. Balela. A moda – no Brasil, principalmente – talvez seja o setor por onde circulam os tipos mais intolerantes, excludentes, esnobes, cafonas e reacionários. Funciona mais ou menos assim: quem não está dentro dos padrões estéticos que essa gente considera ok é ignorado, e ponto final.

Isso é ser ousado e transgressor?

Lá no início do post citei a Beth Ditto e a Lea T. Explico. Os fashion-jecas brasileiros se acham “a última Coca-Cola do deserto”, mas são incapazes de juntar dois neurônios para criar uma ideia própria. Aposto que, se uma modelo negra brasileira for “descoberta” por uma Givenchy da vida, como aconteceu com a transex Lea T., as passarelas da próxima SPFW se encheriam da mais bela negritude. E o tal booker morderia a sua língua de trapo.

Assim é no Brasil colônia: os fashion-jecas necessitam da "bênção" dos gringos para soltarem seu flatulento: "Ohhhhh..." de admiração repentina.

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Agradeço Natália Tano, Denise, Érico San Juan, Luis, Isa, Giuliano, Chris, Ayone e Claudia Collares por comentarem no post anterior: “Por que as mulheres me seguem”. Suas boas palavras me convenceram a seguir com o blog. 

3 comentários:

  1. Pra mim, qualquer instituição, empresa ou afim que apregoe "modernidade" subestima a inteligência do consumidor, seguidor ou coisa pior. E esconde o mais rasteiro conservadorismo.

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  2. Concordo geral.
    Que bando de gente sem nooção esse povo da moda.
    E as "inspirações" dos estilistas?É de morrer de rir.
    Um fez uma coleção com monte de estampas de bolas coloridas porque sonhou com pirulitos.A outra se inspirou numa construção de Nova York,construção essa que ninguém nunca ouviu falar e fez uma coleção inspirada nessa construção.
    PArecia que tinha algo a ver com trens,sei lá,eu sei que ela colocou trilhos nas passarelas.
    Que raio de inspiração é essa?
    E o pior MArcelo foi a Glória Coelho "moderna"...
    NA época que lançaram as cotas para desfiles de mulheres negras ela disse que já tinha muitas negras trabalhando na costura,pregando botão nos bastidores e que não via a razão da polêmica.
    Acredita nisso?
    Mulher negra pregando botões para as brancas européias e ela não vê a razão da polêmica.
    Isso que é a Glória Coelho que tem uma família moderna e viveu a vida toda no meio de gente,supostamente,chique e com cultura.
    Tá explicado.

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  3. Esqueci de dizer...
    Que bom que vais continuar com o blog!
    Fico feliz.

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