sexta-feira, 10 de junho de 2011

O brasileiro é um trio elétrico

João Gilberto mostra a língua para o público no Credicard Hall

O BRASILEIRO é um trio elétrico. Observe a sua alegria flatulenta: é ou não uma alegria de trio elétrico? Outro dia estava no metrô, lia tranquilamente “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, quando quatro meninas invadiram o vagão aos berros, como se estivessem com o capeta no corpo, possuídas pelo “levanta, sacode, balança” da Cláudia Leitte.

No metrô de países desenvolvidos, as pessoas baixam a voz para não incomodar o outro – ou, sem mais a dizer, calam-se. Aqui, não. Aqui, dane-se o outro! Aqui, as meninas trio elétrico apavoram, falando tão alto e rindo com tanto descaramento que foi impossível continuar com a leitura. Fechei o livro, e segui a viagem em silêncio resignado.

Sei que a patriotada feliz vai discordar de mim. A patriotada feliz acha o ensolarado e bronzeado Brasil “o melhor lugar do mundo para se viver”. Eu não. Eu, na verdade, acho que há excesso de sol no Brasil. E, acrescento. Falta melancolia à alma brasileira – aquela melancolia que sossega a periquita, aquieta o coração, faz refletir.

Hoje, meus pés estão gelados. E eu, triste. Acordei assim. E assim devo permanecer até a tristeza ir embora. Mas, na república das “bundas alegres”, estar triste é como ser um “alienígena”. As pessoas estranham; espantam-se; praguejam contra. No Brasil, o “legal” é “extravasar” igual à baiana axezeira; e quem não “extravasa” é um chato – um João Gilberto com seu banquinho e violão.

E, por falar em João Gilberto, o músico acaba de completar 80 anos (leia no Farofafá), e vale aproveitá-lo neste post. Afinal, o seu minimalismo é o extremo oposto do Brasil trio elétrico. E a sua suposta chatice, ao reclamar disso e daquilo, devia servir de exemplo para as “bundas alegres”. Acredite: se o brasileiro, como faz João Gilberto, aprendesse a reclamar, o Brasil seria um lugar bem mais civilizado.

Mas, infelizmente, no país do “jeitinho”, quem reclama é chato; quem pede licença é chato; quem respeita o espaço do outro é chato; quem defende os seus direitos é chato; quem não tolera atrasos é chato; quem é responsável é chato; quem se cala por não ter nada a dizer é chato; quem está triste é chato.

Sim, eu sou chato. E, como João Gilberto, de vez me quando também mostro a língua para quem acha que pode domar a minha chatice.
 

3 comentários:

  1. Para alguns, chatice é sinal de sanidade mental. Mas convenhamos, se todos os chatos fossem adoráveis como João Gilberto... :)

    ResponderExcluir
  2. O Jo]ao Gilberto é um exemplo extremo.
    O cara é muiiiiito chato!

    ResponderExcluir