quarta-feira, 8 de junho de 2011

O indignado de sofá

Do meu sofá para o mundo

NO FUNDO, no fundo, o “indignado de sofá” não está nem aí para nada. É um falsário. Resmunga, bate o pé, faz biquinho, range os dentes e, no minuto seguinte, deita a cabeça no travesseiro e dorme feito anjo. Para o “indignado de sofá”, indignar-se basta. É como se o simples ato de arregalar os olhos de indignação fosse suficiente para interromper o desmatamento na Amazônia ou a construção de Belo Monte.

Atualmente, nos círculos mais vanguarda da sociedade, demonstrar indignação é maneira eficaz de parecer inteligente. E o melhor “lugar” para posar de indignado são as redes sociais. Observe: o Facebook e o Twitter viraram “feira-livre”, onde um quer berrar mais alto que o outro as suas “grandes verdades”. Vence aquele que reunir mais comentários, retuites ou cliques no botão “curtir”. Pensando bem, foram as redes sociais que inventaram o “indignado de sofá”.

Em uma de suas geniais crônicas, Nelson Rodrigues escreve sobre essas nossas falsificações (sim, eu também sou um orgulhoso "indignado de sofá"), quando basta frequentar certos lugares para fingir-se de intelectual.

Leia um trecho:

E nem precisamos mudar de continente. Aqui mesmo, fazemos as nossas falsificações. Temos o Antonio’s, um restaurante que não é restaurante, mas uma simples atitude. Sua bebida não nos atrai, nem a sua comida. Vai-se lá por motivos ideológicos, literários, e não alcoólicos, vejam bem, não alcoólicos. No Antonio’s come-se com desprazer e bebe-se com tédio. Mas fazemos a nossa pose, e basta.

Frequentar certos lugares é uma maneira de ser intelectual ou socialista sem redigir uma frase e sem arriscar uma opinião. Do mesmo modo, o freguês do Paissandu (e pelo simples fato de ir ao Paissandu) toma uns ares de inteligência e de vanguarda. E, assim, falsários da vida, dos valores da vida, vamos fazendo as nossas poses políticas, ideológicas, literárias, religiosas etc. etc.

Mais à frente, o escritor e dramaturgo narra episódio em que um rapaz, conhecido seu, faz sua pose no Antonio’s:

Outro dia vou ao Antonio’s e vejo lá um rapaz, meu conhecido. Ele atropelava senhoras e mesas. De vez em quando varria o restaurante com uma saraivada de palavrões. Notei que as senhoras presentes não estavam assustadas com a pornografia ululante. E, de repente, o pau-d’água me viu e sentou-se a meu lado. Fala comigo e eu percebo tudo. Estava maravilhosamente sóbrio e repito: — não bebera nem água da bica. Simulava o pileque e fingia até a baba que pendia, elástica, do lábio caído.

É desse mesmo modo que age o “indignado de sofá”. Falsifica-se. Faz de conta que se importa, que quer mudar o mundo. Pena que hoje está muito frio para mudar o mundo, né? Melhor deixar pra amanhã, durante o intervalo para o café.

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