quarta-feira, 1 de junho de 2011

Se marchar é preciso...

Marcha da Liberdade, em São Paulo

Eu não devia escrever sobre isso. Não devia! Os bicudos podem me entender mal. Mas, como sou maníaco-obsessivo-compulsivo e não temo os bicudos, aqui vai: em São Paulo, a capital da tagarelice, “marchar” agora está na moda – e tudo que vira moda ataca a minha gastrite. Por isso, não me contenho.

Em um sábado, aconteceu a Marcha do Metrô – mais conhecida como “Churrascão da Gente Diferenciada”. No outro, a Marcha da Maconha. E, em mais outro, a Marcha da Liberdade. Parece que estão combinando para o próximo sábado a Marcha das Vadias – hahaha, que engraçado! Sábado, na “paulicéia desvairada” do Mário de Andrade, não é mais dia de embriagar-se. É dia de marchar! Depois da marcha, aí sim! Para quem aprecia um bom vexame, a bebedeira é permitida, com direito a vomitar no seu melhor amigo.

É bonito ver os paulistanos reagindo às injustiças – qualquer uma. Toda injustiça merece umas boas pedradas. Mas, por muito se repetirem, essas marchas perigam perder a vitalidade, transformando-se em bucólicos piqueniques de fim de tarde. Se marchar é preciso, seja por qual motivo for, marchar a cada sábado pode sabotar toda e qualquer boa intenção. Até Nha Benta em excesso enfastia as papilas.

Por outro lado – ah, lá vem o “outro lado” para embananar o meu raciocínio – há tantas razões para marchar neste país que, se fôssemos ao vão livre do Masp a cada botinada na canela, não sobraria tempo nem para assistir à vingança da Glória Pires na novela das nove. Breve parêntese: (a vingança feminina é a mais admirável das perseveranças). E, por falar em perseverança, é bom lembrar dos meninos espanhóis que acamparam na Plaza de Catalunya por emprego e dos turbantes revoltosos da Síria que continuam morrendo para derrubar mais um ditador do mundo árabe.

Enquanto isso, em São Paulo, marchar por isso ou por aquilo pode virar nada mais que flash mob, happy hour, programa de fim de semana. Se o objetivo for esse, ok. Divirtam-se! Mas, se a ideia é “mudar o mundo”, acho que está faltando coquetel molotov nessa história.  Afinal, não conheço revolução sem sangue na calçada.

Um comentário:

  1. Não faltam motivos no mundo para atacar a nossa gastrite (a minha e a sua, Marcos). Infelizmente, a babaquice é algo que se renova a cada dia... Um abraço solidário e resignado.

    ResponderExcluir