sexta-feira, 3 de junho de 2011

Ser chato pra caramba é a nova ordem

A "raivosa do bem"

SE UM BOCÓ me xinga, eu sinto raiva – óbvio. E, dependendo do xingamento, eu sinto mais raiva ainda. E, retruco. Só não saio no tapa com o sujeito porque sei que vou apanhar: sou ruim de briga. Uma única vez, lá na adolescência, saí ileso de uma luta corporal. Após boxearmos por infindáveis minutos, eu cansei; o outro garoto cansou; e a gente resolveu encerrar o quiproquó em 0 a 0. Com o tempo, aprendi a conter a minha raiva. Hoje, eu sei que, não demora muito, ela passa. Sou assim: em vez de remoer o passado, removo o bocó da memória.

Iniciei este post falando sobre a raiva porque, não sei se vocês perceberam, há um surto de raiva espalhando-se por aí. A doença é altamente contagiosa. E, segundo os especialistas, há fortes indícios de que tenha surgido em um jantar vegetariano onde estavam à mesa um “pessoal aí de esquerda” – e o Danilo Gentili. Parece que Gentili fez uma piada sobre judeus e o “pessoal aí de esquerda” fechou a cara. E foi assim que, subitamente, surgiu a “raivinha do bem”.

O principal sintoma desse tipo peculiar de raiva é deixar os enfermos em permanente estado de mal-humor e – muito! muito! muito! – ofendidos. Cuidado: qualquer pum fora de hora e lugar ofende quem sofre de “raivinha do bem” – e o trombudo pode mordê-lo a batata da perna sem hesitar.

Devido à grande incidência de casos, a “raivinha do bem” meio que virou moda entre o “pessoal aí de esquerda”. Dizem até que “manter-se sempre ofendido” agora é o novo “fumar causa câncer”. Quem não se ofende com qualquer bobagem – ou não para de fumar – é logo desqualificado como burro, irresponsável, inimigo da humanidade.

Ah, a humanidade... A grande missão dos “raivosos do bem” é exatamente salvar a falida humanidade de si mesma. E, para atingir objetivo tão nobre, “proíbem” qualquer “desvio de conduta” que eles consideram ultrapassado, em desacordo com suas ideias progressistas. Ofender-se, agora, é transgredir. E ser chato pra caramba é a nova ordem.

Olha, sei bem o que é ser perseguido. E, na medida do possível, tento combater quem me ataca. Mas sai pra lá com a sua “raivinha do bem”, ok? Se eu quiser beber, eu bebo; seu quiser fumar, eu fumo; se eu quiser rir de piada de papagaio, eu rio. Para me ofender e me deixar com raiva de verdade, é preciso bem mais que um Danilo Gentili. 

Um comentário:

  1. Raivinha "do bem"... Até espumando de ódio essa turma quer parecer boazinha. Em vez de plantar árvores, vão plantar batatas. Ora, ora!

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