sábado, 30 de julho de 2011

duas meninas sapecas

eram amigas; andavam sempre juntas.

nas manhãs de domingo, da janela do apartamento onde passei boa parte da minha vida, em Santos, no litoral paulista, eu as observava caminhar alegres pela rua. De shorts, chinelo e óculos de sol, seguiam para a praia. Ao passar pelo meu prédio, desviavam o olhar para o alto, para mim. Acenavam, sapecas.

eram duas meninas. E eu: um garoto tímido que amava muito mais o Morrissey e a Chrissie Hynde do que as “pessoas de carne e osso”.

a rua onde eu e as meninas morávamos ficava longe da praia. Bem longe. Era preciso ir de ônibus. Mas as duas haviam encontrado uma maneira mais interessante e divertida de fazer o trajeto: pedindo carona.

atuavam assim:

enquanto uma se posicionava à beira da avenida, com o dedo polegar apontado para a orla, a outra escondia-se atrás de um poste ou de uma caçamba ou de um muro. Ficava ali, quieta, rindo baixinho, aguardando algum carro parar. E os carros quase sempre paravam. Ela, então, surgia de supetão, assombrando o motorista.

alguns aceleravam, fugiam; outros cediam aos encantos daquela que pedia a carona: a bonita. E acabava levando também a outra: a feia.

na maioria das vezes, o truque funcionava. E quando não dava certo, as meninas nem ligavam. Pegavam o ônibus e partiam felizes para a praia.

o tempo passou, eu cresci e nunca mais soube das 
meninas. Mas me lembro delas toda vez que ouço alguém bradar que TODOS SOMOS IGUAIS. Não, não somos. 

como as duas meninas que habitam a minha memória: a bonita e a feia – existem os ricos e os pobres; os corajosos e os covardes; os legais e os chatos.

as meninas sabiam disso, sabiam que eram diferentes e que, para conseguir a carona, precisavam “enganar os trouxas”, como contavam entre risinhos ingenuamente maliciosos. Eu, ainda tateando a vida, gostava bem mais da companhia da menina feia. Mas, igual aos trouxas, preferi beijar a menina bonita.

assim é: cada um trapaceia como pode.

3 comentários:

  1. É a triste realidade... A democracia, o cristianismo, é como Nietzsche escreveu, a ditadura dos fracos. O nivelamento por baixo, mas que os fortes, corajosos, sabem muito bem manipular.

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  2. Adorei a história.
    Descobre o que aconteceu com as meninas.
    A bonita e a feia.

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