domingo, 24 de julho de 2011

o primeiro beijo

O primeiro beijo

Garganta seca, ele estava sedento.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de um homem e que era da boca do homem que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua do homem de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.

Olhou a estátua nua. Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto.

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um prazer antes jamais sentido: ele...

Ele beijara a boca de um homem.

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Este post é uma "adaptação" do conto “O Primeiro Beijo”, da Clarice Lispector. Espero que a escritora me perdoe por ter picotado e mudado sua obra. Mas foi por uma boa causa: mostrar que o beijo gay também é belo. Leia o conto original aqui.

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