quarta-feira, 20 de julho de 2011

Torta na cara: a forma mais divertida de protesto

Sapatada e tortas na cara

Durante audiência no Parlamento britânico, o jovem Jonathan May-Bowles acertou um prato cheio de espuma de barbear no rosto do magnata da mídia Rupert Murdoch, dono do tablóide “News of the World”, acusado de realizar mais de 4 mil escutas telefônicas ilegais. Ao ver a cena, lembrei do Bush, da sapatada que quase o acertou.

Foi em 2008. Todo mundo viu. Todo mundo achou graça. E, na época, todo mundo aprendeu que arremessar o sapato contra alguém é ofensa gravíssima na cultura árabe. O sapato simboliza a sujeira. Para piorar, o jornalista iraquiano Muntadhar al-Zaidi, autor da sapatada, chamou o presidente George W. Bush de cachorro. Outra lição: de acordo com a tradição islâmica, o cachorro é um animal impuro – se for lambido por um, deve-se lavar o local imediatamente. Mais do que agredir, a intenção do jornalista foi humilhar Bush em sua última visita oficial ao Iraque como presidente dos Estados Unidos. Conseguiu. As imagens do ataque-surpresa logo se espalharam pelo planeta. E, mesmo sem atingir o alvo (Bush se safou com destreza), a demonstração de desprezo se transformou na imagem-símbolo da despedida do mais impopular político a comandar a Casa Branca. E os sapatos que voaram em sua direção viraram hit de vendas, sendo rebatizados pela empresa turca que os fabricava com o nome de “Sapato do Bush”.

Graças à ousadia e à inovação de al-Zaidi, que virou espécie de porta-voz do mundo (quem não queria ter feito o que ele fez?), o sapato, por um tempo, virou “arma” de protesto mundial. E qualquer calçado é de boa serventia: tênis, sandálias, chinelos, tamancos, sapatos com salto 12, by Fernando Pires. Basta descalçá-lo, mirar o alvo e arremessá-lo sem dó. Governantes merecedores de sapatadas não faltam.

Os sapatos se juntaram aos já tradicionais produtos usados para demonstrar desagrado: os ovos e os tomates. Estes últimos, durante o século XIX, eram arremessados em artistas que realizavam performances consideradas ruins. Pena que tal reação saiu de moda. Com a quantidade de lixo cultural produzido hoje, faríamos bom uso dos tomates que, por descuido, apodrecem na nossa geladeira. Ovos também são ótima munição. Na internet, encontrei um vídeo que ensina como construir um “atirador de ovos” para protestos na rua. Mas é a torta na cara a mais divertida forma de manifestação.

Anna Wintour: plof! Bill Gates: plof! José Genoíno: plof! Ação política, com objetivo de humilhar e constranger o alvo, a torta na cara é a forma mais bem humorada de protesto. No Brasil, há um grupo chamado Confeiteiros Sem Fronteiras que tem como lema: “Poderosos: cuidado, vem chumbo doce por aí!”. Foram eles que lambuzaram o rosto do deputado José Genoíno de chantilly durante o Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre em 2003. Anna Wintour, a poderosa editora da “Vogue América” e adepta dos casacos de pele, foi atacada pelo grupo PETA, que defende os animais, com uma torta de tofu. Bill Gates levou a sua em Bruxelas. Esse tipo de manifestação tem até nome: “PIEing” – ou “caking”, quando se substitui a torta por um bolo de creme. Os primeiros ataques aconteceram na década de 1970 nos Estados Unidos.

Acredita-se que o provável fundador do “PIEing” tenha sido Thomas “King” Forcade. Mas foi Aron Kay quem disseminou a prática pelo mundo. Em 1977, ele realizou o seu primeiro arremesso de torta no rosto da cantora homofóbica Anita Bryant. Pegou gosto pela “confeitaria política” e continuou aprontando: William Shatner e Andy Warhol foram dois de seus alvos. Também nos Estados Unidos, um grupo de esquerda chamado Bionic Baking Brigade fez uso desse açucarado meio de protesto para melecar figuras da direita conservadora norte-americana. Acertaram Milton Friedman, prêmio Nobel de economia e um dos idealizadores da teoria liberal moderna.

Na Europa, o mais conhecido “atirador de tortas” é o belga Noël Godin. Ele e seu grupo atuam há mais de 30 anos. Nesse período, já lambuzaram o rosto de aproximadamente 22 vítimas. Entre elas, a romancista Marguerite Duras e o cineasta Jean-Luc Godard. O filósofo Bernard-Henri Levy foi alvejado cinco vezes por sua “prepotência”. Os escolhidos, segundo Godin, são personalidades que se consideram demasiadamente importantes. Mas ele avisa: as tortadas devem ser sempre delicadas. É proibido o lançamento à distância e as tortas devem pousar suavemente no rosto da vítima.

Na década de 1990, uma empresa inglesa testou várias receitas de tortas. Concluiu que a melhor para arremesso, com aerodinâmica ideal para voar bem e atingir o alvo, deve ser feita com creme de ovos, claras com limão e recheio de frutas. Outros ensinam que tortas de creme de ovo são mais eficientes quando o alvo é móvel. Já as tortas-merengue de limão resistem melhor em ataques bruscos.

A torta na cara surgiu da comédia pastelão, no primeiro filme da dupla O Gordo e O Magro, “A Batalha do Século” (1927), em que Oliver Hardy e Stan Laurel se emporcalham com cerca de 400 tortas. A gag virou ato político dos mais divertidos. Jerry Lewis, Os Três Patetas e os irmãos Marx também são reverenciados pelos bravos “torteadores”.

Torta na cara, ovos, tomates ou sapatos. Não importa qual seja a “arma” usada. Para Noël Godin, é “necessário reagir”. E, como mostrou o jornalista iraquiano al-Zaidi, não é preciso imolar-se nem derramar uma gota de sangue para expor sua repulsa a algo ou a alguém. Basta constranger o adversário. Alguém aí reparou na cara abobalhada do Bush logo após a sapatada? Viram a reação desesperada da mulher do Murdoch ao ataque com espuma de barbear? Ai, que delícia!, exclamaria a socialite. 

3 comentários:

  1. Vez por outra, eles levam torta na cara. Mas os palhaços somos nós, Marcos.

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  2. Sim, Érico, mas é reconfortante vê-los despidos de suas arrogâncias por um minuto que seja.

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