quinta-feira, 4 de agosto de 2011

olhos nos olhos

foi no apinhado metrô de Tokyo, andando de um lado para o outro da movimentada capital japonesa, que percebi como é bom não ser notado, passar batido no meio da multidão.

no Japão – por costume, educação ou vergonha – as pessoas não olham para você. Nem no metrô, local onde, no Brasil, somos perscrutados por mil olhares curiosos e intrometidos.

lá não. Os japoneses fogem do contato visual. Lá não tem essa de “olhos nos olhos”, de encarar o outro sem pedir permissão. No metrô, cada um se agarra ao seu celular, ao seu livro, ao seu sono. Ou seja: ocupa o seu espaço sem invadir o espaço do próximo.

achei civilizado. Sou um tímido – e o olhar alheio me incomoda!

os especialistas em linguagem corporal apregoam por aí que o “olhar fala”. Acredito que sim. Por isso, do mesmo modo que procuro evitar a tagarelice, também procuro não olhar demais para as pessoas. 

Acho grosseiro fixar os olhos no outro, espioná-lo 
de soslaio, oprimi-lo com olhares de superioridade.

no Japão, em meio à indiferença nipônica, experimentei uma gostosa sensação de liberdade, de invisibilidade, de anonimato. Podia me vestir do jeito que quisesse, usar o penteado que desejasse. Desde que eu não causasse nenhuma perturbação pública, ninguém me censuraria com olhares enviesados.

quem olha, fala – e muitas vezes coisas que não deviam ser faladas, que não são da sua conta, que podem ofender o outro. E se é verdade que "olhar não arranca pedaço", também é verdade que em "boca fechada não entra mosquito".

não olhar é modo elegante de não se intrometer na vida alheia.  
 

3 comentários:

  1. Bem, nem vou comentar sobre herança genética... Ah, vai, tbm com olhinhos quase se fechando, né

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  2. kkkkkkkkkkkkk
    Minha mãe tem mania de encarar os outros.
    Tenho que ficar controlando.
    Volta e meia tenho que dizer:
    "Para de olhar mãeee!"
    O pior é que ela jura que o "olhado"nem notou.

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  3. Acho que depende da intenção do olhar. Tem olhar que tira pedaço, sim: da nossa alma. Desse tipo de olhar, é bom manter uma distância higiênica. Um abraço, Marcos.

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