segunda-feira, 15 de agosto de 2011

os compreensíveis

às vezes, preciso gritar; soltar um palavrão; perder a paciência; armar um fuzuê. Sinto necessidade de expor a minha indignação; demonstrar o meu espanto; reagir ao insulto; atirar pedras contra aquilo que me oprime ou me incomoda ou me ofende.

ser compreensível me cansa. E todos nós, na maior parte do tempo, somos compreensíveis demais – por educação, por medo, por interesse, por resignação, por dó. É como se houvesse explicação e desculpa para toda atrocidade cometida.

se o marido agride a mulher, foi a mulher quem deixou a situação chegar nesse ponto. Se uma cambada de pitboys espanca o homossexual, talvez o homossexual os tenha provocado. Se você é traído por seu namorado, a culpa é sua, por não satisfazê-lo sexualmente. Se existem políticos corruptos, isso é reflexo da sociedade que os elegeu. Se o bandido, além de roubar, tortura e mata a vítima, ô, coitado! não teve oportunidade de uma vida digna. Se a Land Rover, em alta velocidade, atropela e mata o rapaz, nada podemos fazer a não ser lamentar. Se ainda há quem maltrate animais em rodeios e touradas, devemos respeitar essas "manifestações culturais”.

ah, vá! Eu não respeito porra nenhuma! E me recuso a ser um compreensível.

parece que ninguém se espanta com mais nada. Tudo pode, tudo é permitido, e qualquer opinião contrária é logo acusada de extremista e preconceituosa.

escrevi um post em que demonstrava o meu espanto ao encontrar a palavra “absurdo” escrita “abiçurdo”. Uma leitora perguntou: “Não teria o seu texto um leve tom de preconceito linguístico?”. Resposta: não. Foi apenas modo de chamar a atenção para o descaso dos brasileiros com a língua portuguesa. Por que, em vez de instigar alguma reflexão sobre o assunto, eu devo ser compreensível com o erro?

ser compreensível é deixar tudo como está. 
Aceitar as coisas como elas aparentemente são. Virar as costas e ir ao shopping fazer compras. 

eu prefiro o espanto. Ao me espantar, com as minhas falhas (na maior parte das vezes) e com as falhas dos outros, e expor o meu espanto, sinto que ainda me importo, que desejo dias melhores – para mim e, quem sabe, para o mundo.

quando eu deixar de me espantar, pode fechar a tampa do caixão, me enfiar numa cova bem funda e escrever na lápide: "Aqui jaz um compreensivo".
 

8 comentários:

  1. É incrível como agente vê dia após dia escândalos de desvio de verbas e todo tipo de corrupção, somos uma nação sem bons exeplos, desde política, polícia, igreja, seja quem for que tenha uma certa autoridade tem sempre uma poça de corrupção aos pés. Aí o cara pensa em ficar indignado mas se não levantar cedo no outro dia e baixar a cabeça e fazer a coisa "direita" perde o emprego, fica sem grana, se sentindo um lixo..
    Ficar indignado em casa não adianta nada, é melhor fingir q está tudo bem e tomar uma cerveja então.

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  2. Esta é minha reflexão, e não opinião.

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  3. fernando hoje em dia é melhor ter reflexão do que opinião.
    se vc elaborar ideias e conceitos é tachado de
    intrometido e careta.

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  4. Ah, oras, sobre o preconceito linguístico, escreves pois o português arcaíco? A lingua é uma entidade viva! E touradas e rodeios são sim manifestações culturais. Ti podes fazer o que bem entende, como a carninha da vaca, mas não pode a diversão!? Abiççurdu içu!

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  5. Quando perdemos a capacidade de nos indigar perdemos tudo.
    Tudo está perdido pois.
    Ninguém se indigna com mais nada!

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