sábado, 13 de agosto de 2011

separadas pelo celular

faminto, entrei na padaria. Era uma dessas padarias desenhadas para atender exclusivamente à soberba da classe média paulistana. Padaria tipo multiuso: padaria-bomboniere, padaria-boteco, padaria-restaurante e padaria-padaria – vendia até pão francês, mas por um valor exorbitante. Que farinha é essa, seu padeiro?

minha fome era do tamanho de duas coxinhas. Mas quando vi, atrás de mim, um balcão de sushis e sashimis, salivei de vontade. Decidi arriscar. Estava uma merda, claro. Só eu mesmo pra comer peixe cru na porra de uma padaria metida a restaurante japonês!

permaneci mais ou menos meia hora no local. Na mesa ao lado de onde eu estava, mãe e filha dividiam uma pizza. Acho que eram mãe e filha: usavam óculos parecidos; as feições eram semelhantes. A mais velha, a mãe, devia ser mulher solitária. Tinha cara de divorciada. A mais nova, a filha, parecia entediada com o mundo. Oh, céus, tão jovem e já insatisfeita! Essa vai precisar de muito ansiolítico para suportar o fardo do longo tempo que ainda tem pela frente.

enquanto lascas de salmão e atum desciam 
gritando pela minha garganta, fiquei observando mãe 
e filha. A pizza as aproximava. Mas havia o celular entre elas – e o celular as separava. 

as duas não conversavam, não se olhavam, nem pareciam estar no mesmo ambiente. Cada uma com seu celular na frente do nariz, permaneceram caladas durante todo o tempo que estiveram na padaria-restaurante.

achei triste, sabe? Eu, ali, sozinho, louco para bater um papo com alguém, e as duas, ali, uma de frente para a outra, e incomunicáveis. A única frase que ouvi da mãe foi: “Vamos indo?”. A filha nada respondeu. E as duas se levantaram, seguindo quietas para o caixa.

estar 24 horas conectado com o mundo é incrível. Nunca mais estaremos sós. Mas quando você começa a dar mais atenção a seus “seguidores” do que para a pessoa que está ao seu lado, acho que existe algo muito muito muito errado aí. A pele e o olhar, a meu ver, continuam os melhores meios de contato e afeto que existem.

mãe e filha estavam juntas; e nem percebiam o quanto estavam afastadas uma da outra. Corri para casa e abracei JK. Não quero 3G nenhum entre a gente.   

3 comentários:

  1. Eu tenho pavor dessa ideia das pessoas estarem 'conectadas' 24h por dia. Não suporto quando estou com alguém e pessoa não larga o celular. Comigo isso é briga na certa.

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  2. vamos mandar para as duas os textos do autoexílio que fizemos? Ilhabela e RJ? aposto que elas teriam uma abstinência nas primeiras horas, mas depois amariam!

    vejo isto direto nas padocas que vou também... mas nas que eu vou nao tem sushi/sashimi não... vai la: galeira dos paes e st. etienne!

    beijos querido, e um ótimo final de semana!

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  3. Ótimo texto...principalmente a parte que diz que a garota de tão tenra idade vai precisar de muitos ansiolíticos para suportar o tempo de vida que ainda tem pela frente...Eu continuo com ansiolíticos e antidepressivos , mas sabe , que já somos até íntimos? Pelo menos eles me fazem bem...Felicidades e ótima semana para você e JK !

    Beijos !

    Mulher Tarja Preta .

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