quarta-feira, 24 de agosto de 2011

vontades

viver é passar vontade. Eu, por exemplo, tenho milhares de vontades guardadas no fundo da gaveta. Até hoje, só consegui saciar algumas poucas. Bem poucas, pra ser sincero. Se comparadas ao tanto dos meus desejos ainda irrealizados, posso dizer que não matei nem 10% das minhas vontades. A grande maioria delas continua aqui, me cutucando, salivando a minha boca.

o problema é que o meu caminho encurta a cada dia, enquanto as vontades vão se acumulando. E penso que não vou ter tempo suficiente para realizá-las todas. Mas quem consegue cumprir tal missão? Quem consegue alcançar uma vida plena, sem sentir uma frustraçãozinha aqui; outra, acolá? Acho que nem o Eike Batista.

por isso, repito: viver é passar vontade.

algumas, deixei de realizar por preguiça. Outras, por medo. E, ainda outras, por deixar para amanhã o que podia ser feito hoje. Na canção “Pare de Tomar a Pílula”, o filósofo do povo Odair José nos chama a atenção para essa nossa mania de ir adiando as coisas: “Nossos dias vão passando/ E você sempre deixando/ Tudo pra depois”. Foi assim que agi inúmeras vezes. E agora eu sei que muitas das minhas vontades caducaram, perderam o prazo de validade.

existem vontades específicas para cada período da vida. Quando eu era moleque, queria ser jogador de futebol ou astro do rock. Não fui nem uma coisa nem outra. Depois, planejei botar uma mochila nas costas e viajar o mundo. Só fui até Cubatão e voltei. Essas vontades passaram. Mas outras surgiram. E outras mais ainda vão surgir.

hoje, quando sinto vontade de algo que posso realizar, vou lá e faço. E quando sinto vontade de algo que eu sei que jamais vou ter acesso, procuro ignorar. Quem compra produto chinês para substituir seu desejo original trapaceia a si mesmo. E só os ingênuos e os pretensiosos acreditam que podem tudo na vida.

pensando bem, viver não é só passar vontade. É preciso também saber controlar as suas vontades. Caso contrário, a gente sairia por aí saqueando as vontades alheias.

4 comentários:

  1. poxa... fiquei melancólica...

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  2. Eu gostei muito desse post!
    passo por um momento complicado na minha e esse post me fez refletir em algumas coisas.

    Percebi que a todo tempo estamos diante de trade offs: ir ou ficar? sair de balada ou descansar? pizza ou lanche? calça ou saia?

    acho que tao importante qto as coisas que deixamos de fazer, sao as coisas que escolhemos fazer! mas, nao sei pq raios, a gente só consegue pensar nas coisas que nao fizemos, nas batalhas que perdemos, nas vontades que nao matamos... pq isso nos marca mais que as coisas boas? Perdi minha avó faz 2 anos. antes disso ganhei 10 primos e muitos amigos. pq só me lembro do aniversário (de nascimento e de falecimento) dela?

    outra coisa que me fez pensar é que na verdade, eu acho que viver é MUITA passar vontade perto daquelas que saciamos. e nao tem jeito. por isso, é melhor eu ir jantar em um japa hj!

    bjos!

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  3. Bela reflexão, Guinoza! Já diriam os sábios: "nem sempre a vida que se leva é a que se deseja ter". Com algumas idas e vindas, aprendi quem nem sempre - ou quase nunca - se pode ter tudo, talvez até um certo senso pra sobreviver às lacunas e seguir em frente, mesmo assim, ou exatamente por isso mesmo. abraço.

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  4. Você já leu algo do Erich Fromm? Ele diz que o ser humano busca a realização, mas que uma vida só nunca é suficiente pra isso. Ele era psicanalista e sociólogo. Uma das mentes mais brilhantes que já li. Meu ídolo.

    Ele fala bem isso que você escreveu nesse post. Acho que vai gostar, se não conhecer ainda.

    Beijo. E Odair é gênio. Gênio!

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