quarta-feira, 14 de setembro de 2011

calejados

quem acompanha o noticiário sabe: os gays apanham pra burro. Muitas vezes, literalmente, levando socos & pontapés apenas por serem gays. Além do espancamento físico, tem o espancamento psicológico. Acredite: tanto um quanto o outro doem. E doem de tal maneira que muitos homossexuais acabam por se jogar pela janela ou passar a vida dentro do armário, com medo dos possíveis ataques homofóbicos.

essa dor que dói em nós, gays, acredito que também doa, com maior ou menor intensidade, em todas as pessoas que sofrem discriminação, que são humilhadas, ameaçadas, perseguidas. Se você é mulher, deve saber que dor é essa. Se você é negro, deve saber que dor é essa. Se você não se encaixa nos padrões de beleza e comportamento aprovados pela sociedade, deve saber que dor é essa.

o problema é que, de tanto apanhar, acabamos calejados. E calejar, segundo o dicionário, significa se habituar ao sofrimento.

ora, quem se habitua ao sofrimento desiste de reagir, de brigar por seus direitos, de botar na cadeia o filho da puta que tentou foder com a sua vida. É por isso que devemos manter essa dor sempre exposta, em carne viva, sensível à qualquer ameaça de agressão. Só assim estaremos alertas para os perigos que nos rondam por aí.

deixar essa dor calejar é o mesmo que deixar pra lá. Aceitar os insultos sem espanto, sem resistência, sem quebrar pratos na parede. Enfim, resignar-se: “Ah, é assim mesmo. Fazer o quê? Já estou acostumado a tomar porrada”. Opa! Peralá! Que história absurda é essa de “acostumado a tomar porrada”?!

revide, revide sempre – com atitudes, denúncias, palavras, palavrões. Não importa. Se a gente não revidar, os espancadores vão continuar soltos. E nós, encarcerados em nosso mundinho de lamentações.

este post era para terminar no parágrafo acima. Mas resolvi completá-lo com um breve diálogo de mesa de bar entre mim e um conhecido:

"você acha que algo vai mudar porque tem um blog denunciando a homofobia?", perguntou a bicha.

respondi que não, que meu blog era apenas um entre milhões de blogs sem nenhuma relevância, incapaz de mudar coisa alguma. Ele prosseguiu:

"então por que perder tempo com isso?"

resolvi encerrar a conversa aqui.

esse conhecido é o mesmo que, em outra ocasião, confessou que sente vergonha alheia quando vê um casal homossexual caminhando de mãos dadas no shopping Frei Caneca. Para ele, devemos ser discretos, não “provocar” a sociedade, fazer de conta que somos “invisíveis”. Assim, evitamos o linchamento público.

"quem mandou se expor? Agora, aguenta a porrada!", provocou esse conhecido. E completou: "É só a gente ficar quieto no nosso canto e ninguém vai nos ofender".

sei não, mas acho que esse aí calejou, habituou-se ao sofrimento e ao silêncio. Prefere “não tocar no assunto” para não chamar atenção. E quantos não pensam igual a ele, hein? Quantos não optam pelo conforto do anonimato e, depois, aproveitam-se dos direitos conquistados através da luta de outros?

celebrar com champanhe é moleza. Quero ver ir colher a uva.

2 comentários:

  1. Ótimo texto!

    Também acho que devemos nos expôr e lutar para que esses loucos espancadores sejam presos.

    E escrever funciona. É o primeiro passo pra fazer muita gente pensar :) Ficar quieto e com medo é que não dá.

    Beijos!

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  2. Verdade Marcus!!!

    Calejar, ou tornar-se rijo é um processo, tem toda uma história. Entendo o teu amigo, não o julgo por isso, mas acho que é sempre possível reverter o processo. Tornar-se fluído, liquido, plástico novamente. Creio que em algum momento a ficha cairá, e ele mudará. É tudo um questão de tempo...

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