sábado, 24 de setembro de 2011

Nollywood: cinema, vodu e buzinas

Foto: Ludovic Carème

Ela é atriz. Foi apresentada por Oprah como “a Julia Roberts da África”. É cantora. Tem um disco gravado: One Logologo. Ela é Genevieve Nnaji, nome quente do cinema nigeriano. Sim, existe uma impressionante indústria cinematográfica na Nigéria. Foi apelidada de Nollywood. Em números, deixa Hollywood no chinelo, e disputa com a indiana Bollywood o posto de maior do mundo. Só em 2004 foram produzidos por lá 1.200 filmes. Uau!

A estreia de Genevieve Nnaji no cinema aconteceu em 1998, no filme Most Wanted. Hoje, ela é celebridade local. Vive na península de Lekki, a Beverly Hills de Lagos, e refúgio preferido das atrizes de sucesso para morar, subir no salto e bater o cabelão black. Genevieve talvez seja a mais notável delas. Sua fama ajudou a empurrar Nollywood para o resto do continente africano e alguns países da Europa.

Foi a célebre revista francesa Cahiers du Cinéma que descobriu Nollywood e divulgou o fenômeno para o planeta, instigando a curiosidade dos cinéfilos. Afinal, que cinema é esse vindo do país mais populoso da África (são 140 milhões de habitantes) e maior nação negra do mundo?

Para desvendá-lo, precisamos rebobinar a fita.

Nollywood surgiu junto com o mercado de VHS na Nigéria. Seu marco zero foi o filme Living in Bondage, de 1992, gravado de forma caseira em uma fita de videocassete. Dirigido por Chris Obi Rapu, o longa foi ideia de Kenneth Nnebue e Okey Ogunjiofor, e narra a história de um homem que é perseguido pelo fantasma da sua mulher. Em Nollywood, magia negra, feitiçaria e vodu estão presentes em boa parte das produções que abrangem os mais diferentes gêneros: do drama à comédia; do romance ao suspense; da aventura ao épico.

Passada a época pré-histórica do videocassete, o cinema nigeriano soube se aproveitar da tecnologia digital para se expandir. Com os novos recursos técnicos disponíveis, ficou bem mais simples e fácil captar imagens, editá-las em computadores pessoais, gravá-las em DVDs e distribuí-las por barracas de camelôs. Meio de produção anárquico que lembra muito o que acontece em Belém, a capital do Pará, onde a turma do tecnobrega faz uso dos mesmos expedientes para chacoalhar a indústria fonográfica. São as periferias do mundo se apropriando dos avanços tecnológicos para produzir livremente suas próprias manifestações culturais. Boa!

Atualmente, Nollywood movimenta US$ 250 milhões e gera cerca de 1 milhão de empregos. Os filmes têm orçamento que varia de US$ 10 mil a US$ 100 mil. Foi em Surulere, bairro onde se concentram os artistas de Lagos, que essa indústria nasceu e se desenvolveu, tornando-se a segunda maior fonte de receitas da Nigéria, atrás apenas da exploração de petróleo.

Agora, preste atenção a este fato: até 2004, não havia uma única sala de cinema no país. Todas foram fechadas ao longo de anos de governos ditatoriais. Colônia inglesa, a Nigéria se tornou independente em 1960. De lá para cá, sucessivos golpes militares foram detonando a economia do país, que hoje ocupa a 142a posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU. Só para efeito de comparação, o Brasil, que não é lá essas coisas, é o 73o do ranking. Em Lagos, ex-capital, principal centro financeiro e cidade mais populosa, os habitantes sobrevivem sem saneamento básico algum e em meio às infernais buzinas de uma megalópole maior que São Paulo.

Mesmo nesse cenário caótico, nos últimos anos, foram abertas algumas salas de cinema na Nigéria. Lagos, por exemplo, tem 15 salas para 16 milhões de pessoas. E todas quase sempre apresentam somente filmes norte-americanos. Com tão poucos espaços de exibição e com os mega lançamentos de Hollywood dominando a reduzida programação, resta de pé a pergunta: onde a população assiste às produções locais?

Elementar, meu caro: em casa ou em pequenos ambientes improvisados, com cadeiras enfileiradas na frente da televisão. Com isso, pode-se supor que a maior parte dos nigerianos jamais tenha passado pela experiência da tela grande. Para diminuir esse fosso que separa público e cinema, Nollywood busca alternativas. Uma delas são as salas itinerantes que percorrem os bairros das cidades. Se, por absoluta falta de opção, a plateia não vai ao cinema, o cinema vai até a plateia.

Boa parte da produção de Nollywood é em inglês, o idioma oficial da Nigéria. Há filmes também em iorubá, língua da etnia predominante em Lagos. O preço do DVD varia bastante, entre 200 nairas e 500 nairas (cerca de R$ 5). Isso se deve à pirataria. Nollywood surgiu na bagunça da informalidade. Atualmente, tenta combater a venda ilegal dos seus filmes. Um esforço que parece inútil – não apenas na Nigéria, como no resto do mundo.

Talvez seja até exagerado chamar Nollywood de indústria. Não basta produzir, de maneira precária e ligeira, milhares de filmes em série. São necessários recursos técnicos, apuro estético, gente capacitada e um esquema de produção, distribuição e exibição mais profissional para que Nollywood possa se desenvolver e passar de fenômeno cultural para indústria cinematográfica. No YouTube é possível assistir, na íntegra, a dezenas de longas nigerianos. E é bem fácil perceber que os filmes têm mais a ver com folhetins de TV que com cinema.

Essa realidade, no entanto, pode estar mudando. Segundo reportagem da Cahiers du Cinéma, houve uma diminuição considerável na produção nollywoodiana: baixou de 80 para 20 filmes por mês. E já existem cineastas determinados a realizar obras mais bem acabadas.

Em entrevista, questionada sobre o seu futuro profissional, a atriz Genevieve Nnaji disse que quer continuar sendo desafiada. “Eu acho que ainda não atingi o meu auge”. Como Genevieve, Nollywood também não. É cinema em processo de construção, com o desafio de criar identidade própria e, quem sabe, conquistar o mundo. Tomara!

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!

Um comentário:

  1. puta merda. nao existiam salas há poucos anos atrás!

    nunca achei que escreveria isto, mas temos muito a aprender com a Nigéria... pelo menos em termos de cinema...

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